Artista que pintou rosto de Lady Gaga em clipe fala de seu trabalho e ensina make de caveira

Alessandra Moura
Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Clipe e Patrícia Araújo/UOL

    Lady Gaga e Zombie Boy no clipe "Born This Way" e reprodução da maquiagem, feita por Dani Fonseca

    Lady Gaga e Zombie Boy no clipe "Born This Way" e reprodução da maquiagem, feita por Dani Fonseca

No clipe “Born This Way”, Lady Gaga aparece com uma maquiagem de caveira semelhante à do modelo canadense Rick Genest, conhecido como Zombie Boy. Artista responsável por este visual, a americana Dani Fonseca esteve no Brasil semana passada para dar uma palestra sobre pintura corporal e maquiagem com airbrush, como parte do concurso de maquiadores Conexão Beauty Art. Confira a seguir a entrevista exclusiva que ela concedeu ao UOL Mulher e o passo a passo do make de caveira, que afirma já ter feito "mais de cem vezes".

Aprenda a fazer o make de caveira de Lady Gaga em "Born This Way"
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Como foi trabalhar no clipe "Born This Way"? Você copiou as tatuagens do Zombie Boy?
Foi copiado. A ideia original é, como a canção diz, você "nasceu para ser assim", não importa qual a sua aparência. O Zombie Boy tem essas tatuagens e as pessoas o olham como se fosse uma aberração. Mas, honestamente, após alguns minutos conversando com ele, você nem percebe mais as tatuagens; é o que ele é. A Gaga queria ter esta energia no clipe. Quando você trabalha com celebridades, tem de assinar uns contratos loucos, não pode levar câmera nem celular na gravação ou será despedido e processado. Eles não dizem quando você vai trabalhar, só te dizem o dia que tem de chegar no set e que depois avisam quando vai fazer o look. Eu sabia o conceito e todas as fotos do Zombie Boy na internet são meio borradas, não dá para ver os detalhes, e o cara estava ali do meu lado. Então, o puxei até meu trailer e tirei fotos de suas tatuagens. Sentei por dois dias, enquanto eles filmavam outras partes do clipe. Trabalho muito rápido e quase nunca tenho tempo de treinar para um trabalho, mas neste caso deu tempo de praticar muito. Fiz o pescoço em um amigo maquiador, as mãos em outra pessoa e fiquei responsável por fazer o rosto da Gaga. No terceiro dia, às cinco horas da manhã, nos acordaram e disseram: “é agora!”. O cronograma estava três horas atrasado, nos mandaram fazer tudo em uma hora. Acabamos em 45 minutos.

Como é trabalhar com a Gaga?
Costumo a descrever como uma artista sentada em uma dinamite de criatividade. Ela não consegue ficar parada. Até as cinco horas da manhã, está escutando novas músicas e nos contando ideias para o clipe. O bom é que ela não tem um grande ego quando o assunto é beleza, ela está mais interessada no conceito. Não se olha no espelho e pede para consertar isso ou aquilo. Ela diz: “estou tão estranha, mas está ótimo. Você acha que vão entender?”. Não é a pessoa mais fácil de maquiar: ela se mexe, conversa... Mas isso não me incomodou, pois eu estava inspirada por ela ser uma pessoa ocupada, com um ritmo acelerado e que quer fazer tudo e agora.

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    Dani Fonseca pintou as modelos no clipe "Off And On", do rapper 50 Cent: "o vídeo é engraçado"

Você também fez o clipe “Off And On”, do rapper 50 Cent. As garotas do vídeo parecem as “mulheres-fruta” brasileiras. Você já viu alguma delas? Conte sobre este trabalho.
Eu já vi todo tipo de mulher. Em Nova York, há de tudo: das mais curvilíneas às mais magrelas. Foi o 50 Cent quem escolheu pessoalmente as garotas do clipe e o conceito dos animais é deles. Queriam que eu fizesse a mesma arte em todas elas, mas acabei mudando um pouco e fiz três gatos diferentes. O 50 Cent adorou, me abraçou e disse: “nossa, o visual tá ótimo” – olhando direto para o bumbum de uma delas. Este corpo é uma assinatura latina e também das negras. Na moda, temos meninas muito magrelas, que para mim não são tão desejáveis; elas parecem ter 12 anos. Sim, talvez elas vistam as roupas melhor, mas as minhas favoritas são as modelos da Victoria’s Secret, que têm curvas, são mulheres. Quer dizer, ter o bumbum tão grande quanto estas do clipe é um exagero. Mas amei que eles focaram em mulheres como estas do que nas magrelas. Elas têm mais espaço para pintar (risos).

Você já trabalhou em um desfile da Victoria’s Secret, certo?
Sim. Em 2010, trabalhei com William Lemon III, que é um grande parceiro meu. Ele criou uma maquiagem tribal em uma modelo [a brasileira Emanuela de Paulo] e me pediu para fazer os mesmos elementos nos dançarinos atrás dela. Então, não foi meu projeto propriamente dito, mas foi assim que acabamos trabalhando juntos na maquiagem da Lady Gaga.

Como foi seu trabalho com a modelo brasileira e “angel” Adriana Lima?
Ela me contratou em um Halloween em que se vestiu de A Noiva Cadáver [personagem de filme homônimo de Tim Burton]. Uma companhia de fantasias fez a roupa, com um corset que tinha ossos saindo para fora. Eu pintei seu braço com ossos e no ombro a pele parecia estar descamando. Mas estava lindo, eu juro! (risos). Era uma maquiagem azul e cintilante. Ela é muito simpática e trabalhar com ela foi uma surpresa agradável: a garota da Maybelline e da Victoria’s Secret queria ser A Noiva Cadáver. É como quando a [modelo e apresentadora] Heidi Klum cria suas fantasias de Halloween, a gente sempre se pergunta o que ela vai inventar da próxima vez. Eu amo celebridades que não se importam em ser bizarras. Não precisa ser a Lady Gaga a todo momento, mas dá para buscar esse lado mais estranho em si.

A sua formação em artes influencia seu trabalho?
Sim. Eu fiz escola de pintura e me graduei em Educação de Arte. Eu não só tinha de criar; aprendi como falar sobre arte e a ensinar as pessoas a se relacionar com ela. Quando crio, é sempre ao redor de um conceito, uma inspiração. Nunca é só uma maquiagem de rosto. Tenho de pensar no corpo todo, no cabelo, às vezes faço pinturas no cenário para casar com a arte corporal. As pessoas costumam me definir como “artista cuja mídia é a maquiagem”, não apenas maquiadora.

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    A modelo e "angel" Adriana Lima pediu a Dani Fonseca o make de A Noiva Cadáver no Halloween

Qual é a diferença entre pintar telas e de trabalhar com pessoas, ter maquiagem e gente como mídia?
Comecei com a maquiagem e a pintura corporal por muitos motivos. Na escola, eu tinha muito espaço para pintar. Mas vivo em um apartamento sem espaço para grandes pinturas. Comecei a maquiar, porque era artístico, criativo e divertido, mas ainda estava entediada. Foi quando a M.A.C lançou uns baralhos em que cada carta tinha uma pintura corporal, que veio com um conjunto de tintas para o corpo; me deu o clique. Isso é o que eu posso fazer: pegar a minha arte e a maquiagem e combinar as duas. Encontrei o que estava sentindo falta em só pintar. Agora trabalho com humanos e eles são telas, mas também tem a energia que vem deles. É uma arte performática. Posso pegar a inspiração da arte japonesa ou do [pintor americano] Roy Lichtenstein, ou criar o desenho dias antes, mas é a pessoa que dá vida ao trabalho. Quando termino de pintar, meu trabalho está feito, mas a obra ainda se movimenta e a reação das pessoas a isto é incrível. Já tive clientes que só porque queriam passar pela experiência de ter o corpo pintado. E até quem tinha problemas com o corpo que, de repente, está pulando pelado e se sentindo incrível, pois seu corpo virou uma obra de arte.

Além de tinta, já usou produtos muito diferentes sobre a pele?
Ah, sim. Quando pintar não é o suficiente, eu colo coisas no corpo. Pedras, renda, botões, fragmentos de espelho... Já usei até ovas de peixe para fazer desenhos sobre a pele de modelos, em um calendário de sushi - foi a coisa mais nojenta que já coloquei as mãos. Para mim, não é só fazer a maquiagem, é uma obra de arte, então faço o que for preciso. Se quero que a maquiagem chegue ao cabelo, passo airbrush nos fios. Adoro um pigmento metálico que deixa a pele parecendo metal de verdade. Com ele, dá para delinear o olho, iluminar a pele e até fazer luzes no cabelo. Amo produtos que não são uma coisa só, que você pode colocar em vários lugares do corpo. Eu uso batom nas bochechas e blush nos olhos. Não me limito só porque está escrito “batom” ou “blush”. Se a cor é exatamente a que eu quero, uso para o que precisar.

O que diferencia o airbrush do pincel?
Você tem o dia todo? (risos) Há muita diferença. Não é uma coisa que uso no lugar na outra, eu combino as duas ferramentas. Sei que muita gente no Brasil nem sabe o que é fazer uma beleza com airbrush. Isso me surpreende, porque é muito mais rápido, corrige a pele com acabamento suave, é resistente à agua, dá para fazer blush, bronzear, iluminar, contornar. Eu consigo fazer uma maquiagem com airbrush dez vezes mais rápido que com o pincel, inclusive os detalhes pequenos. É uma ferramenta eficiente e que deixa o resultado incrível.

Quais marcas e produtos mais recomenda?
Trabalho com muitas, como Make Up For Ever, Mehron e Temptu para airbrush. Claro, há maquiagens que eu sempre uso, mas sou uma artista então trabalho com o que me derem. De produtos, eu amo primer para os olhos. Tem gente que passa sombra e ela sai em cinco minutos. Isso é tão frustrante! Primer para os olhos é a melhor coisa que você pode comprar. Use antes da sombra: ela fica mais nítida e dura o dia inteiro.

Qual foi o trabalho mais diferente ou bizarro que já fez?
O máximo foi pintar o cachorro de alguém (risos). Me disseram: “você pode deixar as orelhas dela rosa?”; contanto que eu não maltrate o animal, por mim, tudo bem. Nem acredito que vou contar isso... Quando comecei com a pintura corporal, tentei encontrar o máximo de trabalhos fazendo o que amo. Uma mulher que costuma fazer umas festas eróticas me contratou para uma delas. No início, eu estava tentando fazer desenhos lindos, mas as pessoas se mexiam, queriam curtir a festa. Entendi que o que importava não era o quão bonito estava o trabalho, eles queriam é ficar nus com o corpo cheio de tinta e glitter. Este é o caso mais fora do comum. Eu sempre digo aos meus alunos: “a pintura corporal não precisa ser erótica, é profissional e coisa e tal”, mas este é o outro lado do espectro, é completamente erótico. Você tem que manter a cabeça erguida em qualquer situação em que estiver.

Qual dica da body art pode ser usada na maquiagem da mulher comum?
Arte corporal é divertida. Se quiser traduzi-la para o dia a dia, brinque com a cor. Eu também dou aulas de maquiagem a mulheres e vejo que elas têm medo de tentar algo novo. Mas pensar que você não pode usar algo diferente não é legal. Você só precisa aprender onde colocar a cor para ficar bonito. Comece escolhendo apenas uma, para dar destaque. Quer usar um pink nos lábios? Vai lá, mas deixe que ele seja o foco de cor e use a pele mais limpa, só com um pouco de blush e delineador. Quer passar verde neon nos olhos, mas sem parecer louca? Tente usá-lo em um traço delineado, algo que quem olhar para você vai pensar “uau! De onde você tirou isso?”. É só um toque diferente, artístico, mas que podemos fazer todos os dias. Eu não me sinto obrigada a fazer minha maquiagem, mas, quando acordo, isso é uma espécie de meditação para mim. Sou inspirada a fazer uma bochecha iluminada ou olhos bem limpos com só um pouco de glitter. É uma forma de me expressar sem ter de me jogar em uma pintura corporal. E, se não souber como fazer, há milhões de lugares na internet que ensinam a fazer maquiagens. As mulheres devem encontrar inspirações e ter coragem de arriscar e testar.



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