Fragrância orgânica Boisé é macia e acolhedora como um colchão de penas

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Frasco do perfume Oceans Nautica
    Criadora: Patyka Avaliação:

Tenho pouca paciência para coleções de perfumes orgânicos, e talvez menos ainda para as pessoas por trás delas. A razão mais fundamental é que os perfumes geralmente têm um cheiro inferior. Por exemplo, eu nunca liguei para o cheiro de nenhum perfume da marca Strange Invisible, apesar do grande esforço de minha parte e da sinceridade e do trabalho árduo de seu fundador. A maioria das linhas orgânicas, eu acho, oferece várias versões de odores amadeirados, que parecem cogumelos. Poderia acrescentar aqui que é impossível um perfume totalmente orgânico ser bom, mas eu estaria errado, já que o Guaiac, da Red Flower, recentemente mudou esta situação. Agora a Patyka prova mais uma vez que eu estaria errado.




Fundada por Phillip Gounel, o diretor criativo da Patyka, e planejada pela perfumista da casa, Jenny Corless, a marca orgância de skin care e fragrâncias chegou aos Estados Unidos em 2005. A filosofia da Patyka fala sobre ser natural e orgânica, que é sua razão de existir e sua causa política.

No que diz respeito à sua abordagem estética, Patyka é, curiosamente, uma coleção de paradigmas de cheiros. Todos os seis perfumes da marca foram batizados com nomes de classificações básicas da perfumaria: Hespéridé (perfumes cítricos), Chypre, Boisé (amadeirados) e Ambré (ambarados; todos os ambarados são feitos a partir de baunilha e patchouli). Por um lado, isso é uma fraqueza. Tomemos o Ambré como exemplo. Jenny Corless e Phillip Gounel criaram um ambarado absolutamente clássico. Assim como o molho bechamel básico de Escoffier [chef francês], ele poderia ser usado nas salas de aula sobre perfumes como modelo, um tipo de ancestral filogênico aromatizado. Criatividade e inovação não existem ali - embora Ambré seja muito, muito agradável, cremoso como um leite maltado e engrossado com baunilha.

Antes de acabarmos com os outros perfumes, tratemos da - assumidamente forte - censura. Primeiro, fundamentalismo é repreensível, independente da forma. Não há motivo científico para desdenhar os sintéticos, o que o diretor criativo da casa infelizmente faz, com seu jeito francês e cortês. Por que fazer isso? Pode ser uma boa estratégia de marketing. Para que alguém seja mais generoso, ele deve ter nascido com o desejo honesto de cuidar do planeta. Mas isso não é racional. Primeiro que perfume não é comida, é arte, e as matérias-primas das fragrâncias não precisam ser nem um pouco mais naturais que os pigmentos das tintas. Além disso, para se obter geraniol (uma molécula incrível) pode-se plantar e destruir toneladas de gerânios ou simplesmente criar o geraniol no laboratório, pois as moléculas são idênticas e a versão sintética tira menos da terra.

Depois existe a questão do que é natural. Graças a regulamentações recentes da Comunidade Européia, todos os perfumes devem especificar quais são os ingredientes conhecidamente alérgenos, o que significa que os perfumistas devem limitar as quantidades de compostos alergênicos usados nas fórmulas. Consequentemente, a embalagem da Patyka lista limoneno (encontrada no limão), citronelol (gerânio) e linalol, e todos são bons, exceto por uma coisa: todos podem ser sintetizados sem prejudicar o solo; e o linalol natural é extraído principalmente do pau-rosa, que está em extinção. Ao não usar o linalol sintético, a Patyka vem contribuindo para seu fim. Outra coisa: o alérgeno benzoato de benzila é encontrado no ylang-ylang; pelo fato da Patyka não acreditar na tecnologia que poderia purificar o ylang-ylang e remover dele este composto, o alérgeno entra na composição do perfume.

Na caixa também está listado "parfum". Hã? O que isso significa? Tudo é "parfum", um guarda-chuva que esconde um sem-número de possíveis pecados.

Apesar disso tudo, estes são quatro perfumes extremamente agradáveis. Hespéridé é absolutamente encantador, uma lufada de limão puro vindo de um morro ensolarado da Sicília. É um cítrico perfeitamente balanceado que carrega consigo a sensação de êxtase refrescante, puro e descontraído, uma coisa difícil de criar. Aposto que este perfume é mais eficiente que Paxil [um tipo de antidepressivo]. Os grupos Lauders e LVMH deveriam tomar conhecimento do Chypre, que transporta com maestria o progenitor do gênero, o Chypre de Coty de 1917, para o século 21 através de uma echarpe acetinada de musgo do carvalho e um delicado acorde de especiarias, junto com bergamota e lima. Sua embalagem, assunto sobre o qual eu normalmente não comento, é muito perfeita para ser ignorada.

Talvez o melhor seja Boisé, um amadeirado acessível e cheio de estilo. Nada das sobras de lápis apontado (ou cedro) do Gucci Homme, nada da fumaça ou dos excessos do Féminité du Bois ou a contemporaneidade cool do He Wood, Boisé é um colchão de penas, macio e acolhedor, de uma fragrância amadeirada. É também a única que persiste na pele, outro problema da coleção da Patyka. A falta de sintéticos de alta performance significa que você está pagando por perfumes que desaparecem depois de cinco minutos (Hespéridé), 20 minutos (Ambré) ou 40 minutos (Chypre), e é por isso que Boisé se sobressai perante os outros. Para ser incrível de verdade, um perfume deve persistir na pele, simples assim. Estes perfumes são tão efêmeros quanto a felicidade, mas durante o curto período em que existem, são maravilhosos, e você realmente se sente feliz.

Boisé
Patyka
patyka.com
 

Tradutor: Erika Brandão

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