Primeiro perfume "gourmand" da Chanel, Coromandel é deliciosamente desconcertante

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Frasco do perfume Coromandel, da Chanel
    Criadora: Chanel Gênero: Feminino Avaliação:

Há décadas, a coleção de perfumes da Chanel permanece firmemente longe das mesas. Mas eu sempre me perguntei: se a maison Chanel fosse, finalmente, criar um perfume gourmand, qual seria seu cheiro? A resposta pode ser encontrada em Coromandel, uma fragrância que faz parte da relativamente nova coleção da casa, Les Exclusifs, e cujos aromas cumprem seus papéis maravilhosamente. Estes foram feitos para serem perfumes de nicho, e, felizmente, têm cheiro de perfumes de nicho – mais etéreos e ousados que o trabalho mainstream da Chanel, se é que podemos chamar o superluxo de mainstream.

O poder da coleção completa de Chanel está fundamentada, naturalmente, no No. 5, que foi lançado em 1921 e permanece sendo um dos melhores trabalhos na história da perfumaria. Ele era – e ainda é - construído com brilhantismo a partir das melhores matérias-primas e, mais importante que isso, provavelmente foi a primeira grande obra de arte olfativa modernista. O perfumista Ernest Beaux usou os materiais sintéticos que por quase meio século gotejaram, depois transbordaram nas paletas dos perfumistas. Mas enquanto todos estavam usando estas moléculas em suas fórmulas escondidas sob aromas naturais (tuberosas, laranja, etc etc), Beaux simplesmente soldou seus sintéticos do lado de fora da estrutura do perfume. O modernismo chegou, e um padrão foi estabelecido. Mas pareceu também ter determinado um precedente estilístico para os perfumistas da Chanel, que permaneceu praticamente inalterado durante anos.

Os perfumes No. 9 e No. 22 são obras de arte, mas sua beleza é fria e majestosa, e não há nenhum traço de qualquer coisa comestível – nenhum toque de baunilha ou especiarias. Allure e Chance são, segundo os padrões Chanel, basicamente trabalhos sólidos. São, respectivamente, a representação olfativa perfeita de uma mulher detentora de muita riqueza e a representação olfativa perfeita da filha daquela mesma mulher. Em nenhum dos casos há referências a comida.

A coleção continuou neste caminho até 2007, quando nasceram Les Exclusifs. Os perfumistas da Chanel, Jacques Polge e Christopher Sheldrake, lançaram um novo escalão, concebido com maestria. E Coromandel é, provavelmente, o mais notável porque enquanto é análogo do maravilhoso No. 18, é também o primeiro gourmand da Chanel. Como se não bastasse, Polge e Sheldrake criaram uma tensão interna fascinante nesta fragrância.

O perfume alterna, às vezes a cada segundo, entre seu status de Chanel clássico – tão estatual e incomível quanto um anjo de mármore – e sua natureza paralela, a suculenta criação doce de algum chef, sutil e maravilhosa. Coromandel tem uma abertura clássica, com o majestoso expressionismo do No. 5 – embora aqui a rosa e o jasmim fundamentais tenham sido trocados por um floral abstrato magnífico. Esta flor cheira como se tivesse crescido em uma floresta urbana, sob uma proteção de vidro, ela não entra em foco. E é aí que a fragrância repentinamente tremula e se transforma em algo delicioso.

Seria tedioso simplesmente criar mais um gourmand fabuloso. Dizer que Coromandel contém essência de canela do Ceilão, ambrete e essência de alcaravia (com um leve sabor de nozes e um toque de menta) soa incrível, e é, mas não descreve a delícia desconcertante da fragrância. O efeito é sublime, uma sobremesa quase melancólica, cozida para alguém com apetite perspicaz e nostálgico.

Muito disseram que a genialidade do perfumista Jacques Guerlain – cuja famosa família de mestres-perfumistas sempre incorporam odor de confeito em seus trabalhos – estava no fato de ele deixar as mulheres com a boca cheia d’água, e então parar. O perfume tremula novamente e se transforma no cheiro de feno morno e seco de verão, além de um adorável e extraordinário verde. Não o verde-escuro da esmeralda, bruto e escandaloso do gálbano, ou o verde brutalmente neon da Stemone. Aqui, o verde é delicado, indefinível e leve feito ar. Não é um verde com cheiro natural. Isso não teria graça. Seria tão sem graça quanto simplesmente criar outro fabuloso gourmand.

Tradução: Erika Brandão

Tradutor: Érika Brandão

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