Colônias da Atelier Cologne têm aromas cítricos que não fixam

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Grand Neroli da Atelier Cologne
    Criadora: Silvie Ganter e Christophe Cervasel Gênero: Unissex Avaliação:

Colônias não são “perfumes para homens”, como os marqueteiros treinaram os americanos a pensar: são uma receita unissex, criada no começo dos anos 1700 na cidade de Colônia (daí o nome água-de-colônia). A fórmula é simples: uma combinação de óleos provenientes das cascas de frutas cítricas – grapefruit, limão, laranja doce ou azeda, bergamota... – imersos em álcool, numa concentração bem baixa. Embora seja verdade que um um óleo essencial cítrico de alta qualidade pode praticamente despertar uma experiência religiosa, eles são muito raros de se encontrar. E você pode adaptar a receita ao acrescentar uma erva aromática ou um toque floral, mas no geral esta fórmula está obsoleta, se não inválida. As colônias são muito resistentes à inovação, e não puderam se beneficiar de todas as matérias-primas sintéticas que expandiram imensamente as paletas dos perfumistas a partir do século 19.

Sendo assim, lançar uma nova coleção de colônias é um feito complicado. A forma antiquada é como um telhado de sapé: romântico no abstrato, mas impraticável na vida real. As colônias sofrem de uma fraqueza técnica virtualmente fatal: as moléculas cítricas, que estão entre as moléculas mais leves que existem, carecem de qualquer tipo de fixação. Elas desaparecem da pele como gotas de gasolina no asfalto. Quando mal construídas (e muitas delas são), o ato de desaparecer é a única vantagem da colônia. Quando elas são de alta qualidade, elas sinalizam um instante de beleza luminosa, e então desaparecem.

Então, uma pergunta: por que os eteranos da indústria do perfume Silvie Ganter e Christophe Cervasel criaram Atelier, uma coleção que só oferece colônias? Ganter é a antiga presidente do Selective Beauty, uma empresa licenciada para a produção de fragrâncias, que hoje não está mais em funcionamento e na qual Cervasel era CEO e fundador. A nova coleção deles, agora com lançamento mundial, será vendida este ano pelas marcas Bergdorf Goodman e Neiman Marcus.

Nas cinco fragrâncias de colônias Atelier, todas unissex, Ganter e Cervasel não conseguiram resolver o problema do desaparecimento do cheiro. Mas se você gosta de claridade e pureza, mais do esboço do que da pintura – e prefere a o caráter evanescente à fixação na pele, três das cinco são águas-de-colônia muito agradáveis e contemporâneas.

As duas que ficaram para trás são Trefle Pur e Oolang Infini, ambas do perfumista Jerome Epinette. Por conhecer Ganter e Cervasel, imagino que ambos ficaram acompanhando de perto suas criações. Mesmo assim, as duas particularmente não funcionam muito bem. Desbotada e um pouco vaga, Trefle, um trevo suave e verde, e Oolang, uma fragrância límpida e que, estranhamente nos lembra os anos 90, desapontam.

As três que dão conta do recado são prazeres refrescantes. Epinette também criou Bois Blonds, que evoca o cheiro de pele morna aquecida pelo sol de verão. Orange Sanguine, criada por Ralf Schwieger, é um cítrico suculento como uma fruta doce e amadurecida sob o sol. Por outro lado, a Grand Neroli de Cecile Krakower surge com uma forma mais amarga, mais pungente. Neróli são as flores de laranjeira destiladas, não a fruta, e é possui notas notoriamente mais fracas. Usar este cheiro é como vestir o verão: um ar fresco, leve e morno borrifado em sua pele. E para um cítrico, ela até que dura bastante tempo.

O charme essencial destas fragrâncias está na sua simplicidade. Se você tivesse que se sentar perto de alguém em um jantar ou em um voo, iria adorar que a pessoa estivesse usando esta fragrância. Você não arregalaria os olhos perguntando “que perfume é esse?”. Na verdade é capaz de nem lhe ocorrer que a pessoa estaria usando qualquer perfume. Você poderia simplesmente perceber a pálida luz e a adorável tepidez emanando daquela pele.

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