L'Eau de Tarocco é uma brisa fresca por entre as sombras de um laranjal

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Diptyque Gênero: Feminino Avaliação:

Talvez a maneira mais empobrecida de se imaginar um perfume (ou de descrever um perfume) é listar suas matérias-primas. É como tentar desfrutar a "Pavane" de Ravel só de ler a partitura.



Mas há uma exceção. Quando um perfumista parte de um conceito simples e, por meio de uma técnica transparente, cria uma frangrância cristalina, as matérias-primas iluminam o resultado. Este é o caso do sublime L'Eau de Tarocco, lançado em maio passado pela Diptyque e projetado pelo Ravel dos perfumistas, Olivier Pescheux.

Pescheux, em trabalho conjunto com a diretora criativa da Diptyque, Miriam Badault, começou com o mais elementar dos conceitos. No Marrocos, ele havia comido um prato simples e tradicional, um "carpaccio d'orange" --finas fatias de laranja salpicadas com água de rosas, canela e um toque de açafrão. Pescheux e Badault decidiram que ele construiria um carpaccio de laranja olfativo. O perfumista começou escolhendo uma variedade de laranja oriunda da Calábria, chamada "tarocco".

O extrato da maioria das laranjas (os óleos essenciais espremidos de sua casca) difere perceptivelmente do gosto de sua polpa, que geralmente é mais frutada ou mais floral. A particularidade da laranja tarocco é que seu óleo e sua polpa são muito semelhantes.

Pescheux trabalha em Paris para a indústria de perfumes Givaudan, que produz matérias-primas inalteradas e de altíssima qualidade, a que ele dá o nome de "orpur".

Ao orpur de tarocco puro da Givaudan, Pescheux adicionou orpur da casca da canela do Sri Lanka e açafrão do Laos, e uma destilação de gengibre para conferir uma certa pungência; orpur de rosa búlgara para invocar a água de rosas do carpaccio; hediona (presente no jasmim), para dar sua delicada característica floral; e magnolan, molécula que entrega tanto flores brancas quanto um toque de rosa e que Pescheux acrescentou para formar uma ponte ligando a hediona à rosa búlgara.

Ele acrescentou essência de cedro do Texas para a base, olíbano da Somália (o incenso que se pode sentir em uma igreja ortodoxa russa) para dar um ar de mistério, e duas moléculas cativas da Givaudan: cosmona, para dar um toque de talco, rico e macio, e serenolide, para que uma textura mais seca possa "carregar" o incenso.

L'Eau de Tarocco é uma fórmula pequena, só contém 23 matérias-primas. O perfume resultante é o quarto da fila das novas e cada vez mais extraordinárias águas-de-colônia da coleção da Diptyque, que estão ficando tão boas quanto as novas águas-de-colônia da coleção da Hermès de Jean-Claude Ellena.

O gênero "água-de-colônia" é sem graça: pálido, fugaz, unidimensional, antiquado, como águas coloridas com cheiro de limão ou grapefruit. Com Pescheux e Ellena, estamos presenciando um aperfeiçoamento fundamental da categoria.

Tarocco é uma obra olfativa incrivelmente perfeita, com um equilíbrio de um ar fresco pálido e condimentado que se move através das sombras de um laranjal. Sem fazer esforço, ele transcende o gênero: é menos aquarela e mais óleo, pacífico como um Buda, elegante como o linho, fresco como a grama fresca da noite.

l'Eau de Tarocco
Diptyque
www.diptyqueparis.com

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