Qualidade das fragrâncias masculinas nem sempre aparece na fórmula

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Dolce & Gabbana Gênero: Masculino Avaliação:

As decepções entre os perfumes que estão no mercado para os homens são maiores que o número de átomos no universo. Masculinos - o termo usado pela indústria - são geralmente definidos pela vasta criatividade, beleza, elegância e inovação que nunca foram atribuídas às suas fórmulas. Estas qualidades são comumente reservadas para os femininos, embora homens com olfato apurado só usem o que é realmente bom, ignorando a distinção entre os gêneros. Malditos sejam os marqueteiros.

Exemplo número um. Armani deve o domínio do mercado dos perfumes masculinos a uma indômita fórmula de sucesso: a versão olfativa da seda que se transforma em um colete à prova de balas, e a genialidade de Armani sempre foi esta blindagem delicada. Armani não produz perfumes. Ele produz máquinas. Isto não é um ponto negativo em si. Entretanto, seu problema está exemplificado em Attitude. Esta fragrância foi criada pelos perfumistas Alberto Morillas, Annick Menardo e Olivier Cresp, artistas com criatividades genuínas, mas aqui marchando todos no mesmo passo. Eles criaram o odor de um modelo masculino fotografado através de uma lente polarizada. O homem ali está lacrado, blindado, é intocável.

Há então o exemplo número dois, aquela decepção genuina e de cortar o coração, que só sentimos depois de um grande triunfo. O feminino Light Blue, de Dolce & Gabbana é brilhante, uma maravilhosa mistura de cidra siciliana, torta de maçã e cedro que Olivier Cresp estruturou e transformou em uma jóia incandescente, como uma obra do arquiteto Renzo Piano (perfeito para os homens, conseqüentemente). Sob a égide da Procter & Gamble, que detém a licença dos perfumes D&G, Alberto Morillas fez do Light Blue Pour Homme uma fragrância cética e banal como se fosse vendida em qualquer drogaria. Por mais desconcertante que seja, ele não determinou nenhuma conexão olfativa ao original feminino. Então o que se tem aqui é um enigma, uma beleza verdadeira ao lado de uma fotocópia grosseira de um clichê masculino dos anos 80.

Como fugir desta arapuca? Acrescente beleza, ousadia e dinheiro. Veja o caso do exemplo número três: Extreme, de Tom Ford. O perfumista Pierre Negrin, trabalhando sob a direção criativa de Ford, criou uma fragrância urbana surpreendente: o cheiro do asfalto de verão resfriando na rua da cidade sob um céu negro aliado a caros sapatos de couro (aposto que está impregnado de bétula e pau santo).

Extreme não é meu perfume favorito. Não tem problema. É possível sentir o cheiro da qualidade das matérias-primas aqui. É possível sentir o cheiro de uma visão interessada, de uma mente trabalhando: solitária, poderosa, perigosa e muito escura.

Tradutor: Erika Brandão

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