Menthe Fraîche sinaliza uma nova escola de fragrâncias leves, naturais e etéreas

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Heeley Gênero: Unissex Avaliação:

Descobrir uma nova fragrância que seja extraordinária já é um prazer por si mesmo, como se estivéssemos ganhando um presente sem esperar. Descobrir toda uma coleção de fragrâncias extraordinárias acrescenta ao prazer um elemento de admiração, talvez até de ansiedade: por onde elas andaram? Como categorizá-las? Como pagar por elas? Qual usar primeiro?


James Heeley, um jovem inglês que mora em Paris é um designer um tanto inclassificável - ele faz coisas que, apesar de terem certa praticidade, esbarram na mais pura arte. Até recentemente, ele trabalhava só com mídia visual. Mas há alguns anos ele resolveu ser o diretor criativo de uma série de perfumes. Eles são construídos de maneira sublime e requintada e, também, misturam as fronteiras entre um produto criado para o consumidor e arte. A coleção de Heeley está entre as melhores do mundo.

Nada no seu trabalho é "masculino" ou "feminino" ("São classificações que tendo a ignorar", disse Heeley). Sua obra literal, pós-moderna e irônica, Esprit du Tigre, é o versão direta do Tiger Balm que muitos de nós carregamos em nossas mochilas; é artístico na transliteração estética - ao colocar o familiar em um contexto espantosamente diferente, como Roy Lichtenstein fez ao transformar a imagem de uma história em quadrinhos em pintura. Para criar a fragrância Cardinal, Heeley trabalhou no expressionismo abstrato: é um cheiro que cita, intencionalmente, marcos não-identificados e ainda faz com que a beleza se transforme segundo seus próprios termos.

Atualmente, meu favorito é Menthe Fraîche. Como o resto da coleção, Menthe Fraîche é tanto cerebral quanto visceral. Seu realismo é enganoso: tecnicamente, é o cheiro da menta, mas na verdade é um perfume que usa a forma da menta para reconceitualizar uma única matéria-prima através de um trabalho complexo.

A primeira fragrância de Heeley, Figuier Edition 1, foi projetada para uma vela, lançada em 1998. "Eu me interessei em criar um perfume que fosse usável, a partir de Figuier", diz Heeley sobre sua fragrância de figueira, mas a empresa que produzia suas fragrâncias na época exigiu que ele pedisse um volume impraticável do produto. Então ele começou a procurar alguém que fizesse sua excelente fragrância. Acabou chegando na APF, um pequeno laboratório perto de Grasse, na França, e começou a trabalhar com seu perfumista, Darid Maruitte.

Maruitte construiu Figuier, o primeiro perfume de Heeley, lançado em 2001. Mas Heeley diz: "Eu tinha várias outras ideias na cabeça, e uma delas envolvia menta fresca, que eu adoro". Ele havia se inspirado em uma menta silvestre da Córsega, e mesmo antes de Figuier ficar pronto, eles começaram a trabalhar no perfume de menta.

"Quase todo mundo que eu consultei achou que seria uma má ideia", disse Heeley. "Ninguém conseguia se imaginar usando um perfume de menta. Eu amava a ideia. Não podia imaginar nada melhor. A menta é muito importante na cultura inglesa. E, sim, ela está nos chicletes, nos doces, nos chocolates, mas eu imaginava um perfume de menta sofisticado, fascinante, de vanguarda".

Os perfumes carregam menta como uma de suas matérias-primas há anos. Não consigo entender como ninguém antes de Heeley tenha pensado em criar um perfume elegante de menta, mas aqui estamos nós. Existem, essencialmente, dois tipos de menta como matéria-prima disponível: "Mentha crispa", ou hortelã crespa, que é mais doce, e a "Mentha arvensis", ou menta - usada na maioria dos chicletes - que é mais verde, mais arredondada, com um aspecto de grama recém-cortada. A menta também contém uma grande quantidade de mentol, "que lhe proporciona uma sensação de frescor", explica Heeley. "Seu papel é dar frescor e sensação de friagem ao perfume".

A partir daquela base, Maruitte começou a construção. Primeiro, o sintético acetato de estiralila: uma folha verde, levemente aromática, amassada. "Não surpreende ninguém que conheça sobre perfumaria", diz. "O sintético é o que empresta à fragrância um aspecto natural". Metil pamplemousse acrescenta um toque cítrico. Iononas alfa e beta, geralmente usadas para criar íris e violetas, passam as ideias de chá verde e de refinamento. Maruitte usou então o sintético hediona para refinar o chá e dar ar ao perfume, assim os componentes cítricos poderiam respirar. No total, a fragrância contém 28 matérias-primas.

Menthe Fraîche tem cheiro de menta em uma noite fresca de verão, suas folhas verdes se recuperando depois que o sol se pôs. É um cheiro natural e refrescante que empresta profundidade das fragrâncias que estão ao seu redor: relva, palha seca pelo sol, o ar fresco. Não há nenhum resquício de açúcar, nenhum traço de pasta de dentes.

Menthe Fraîche é um escape radical de virtualmente todos os conceitos de "perfume". Eu iria além e diria que ele sinaliza, potencialmente, uma nova escola de fragrâncias - mais leves, mais naturais e etéreas do que as que vieram antes. O que a fumaça, a madeira antiga e os condimentos são para alguns perfumistas, o frescor orgânico e a vegetação viva são para Maruitte e Heeley. Esta fragrância é refrescante como lençóis brancos e limpos. É tão lancinante quanto um pequeno espinho. É tão bom que pode renovar nossa confiança.

"As pessoas me perguntavam: 'quem quer cheirar a pasta de dentes? Isso nunca vai funcionar'," lembra Heeley. "Mas quando é feita da maneira correta, toda fragrância funciona."
 

Tradutor: Erika Brandão

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