Nº 08, da elitista Jacomo Art Collection, remete às ruas perfumadas de Mumbai

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Frasco do perfume Nº 8 da Art Collection by Jacomo
    Criadora: Jacomo Art Collection Gênero: Feminino Avaliação:

Jacomo é uma pequena marca elitista que, desde seu nascimento, no final dos anos 60, vem exercendo um papel "andywarholeano" no comércio de Nova York. Era uma criação improvável: James Kaplan, um americano, e Gerard Courtin, até então um pianista francês, abriram juntos uma loja de artigos de couro na 5a. Avenida, em Manhattan. Deram o nome de Jacomo – “Ja” de James, “co”, de Courtin e “mo” porque... bom, por que não? Nos anos 70 eles descobriram a perfumaria.

As primeiras fragrâncias da Jacomo foram a masculina Eau Cendree, do perfumista Jean-Claude Astier e seu correspondente feminino, Chicane, criado em 1971 (nenhuma das duas ainda é fabricada hoje em dia). Desde o começo, a Jacomo despontou como uma marca peculiar e exclusiva. Eau Cendree e Chicane eram vendidas somente na loja da marca na 5ª Avenida, e seus produtos incorporavam explicitamente elementos da arte moderna. Dizem que uma escultura no Museu de Arte Moderna de Nova York inspirou o frasco de Eau Cendree, simples, negro e vermelho. A clientela da Jacomo era devota daquela mistura única entre exclusividade e talento artístico.

Infelizmente, apesar de a marca Jacomo ter se mantido ativa nestes 40 anos, suas novas fragrâncias causaram pouco impacto. Agora, com sua mais recente coleção –intencionalmente conhecida como a “Coleção de Arte da Jacomo” – a marca quer voltar ao mercado. Para cada um dos perfumes da série, Nº 02, Nº 08 e Nº 09, todos lançados este ano, a Jacomo escolheu um artista (todos eles são suecos) para fazer a direção criativa. Os resultados variaram bastante.

O menos bem-sucedido, de longe, é o Nº 02. A diretora de criação Cecilia Carlstedt e a perfumista Cecile Matton criaram o que é, essencialmente, um Armani Code com um pouco mais de personalidade. Isso significa, em uma única palavra, cumarina, o cheiro que dá à fava-da-Índia, ou à tonca, aquele aroma de baunilha e amêndoa. Mas enquanto Code é, simplesmente, cumarina o tempo todo, Carlstedt e Matton modularam o perfume com outras matérias-primas, mais interessantes. No fim das contas, entretanto, isso não basta. Nº 02 continua sendo um gourmand diáfano, bem-intencionado porém insatisfatório.

Nº 09, de Matton e da diretora de criação Stina Persson, é mais atraente. Apropriada para um produto da Jacomo, a fragrância traz à mente, na mesma hora, arte visual. Nº 09 abre com um expressionismo abstrato bastante agressivo: nos três primeiros minutos, é uma pintura do Takashi Murakami, com tons de neon completamente ameaçadores. Depois ele se acomoda em algo mais realista: há toques de laranja ultradoce, como um suco Tang, que esmorecem e ressurgem. Então, uma explosão de suco de uva e manga extremamente doce se unem ao ácido concentrado de – o que mais poderia ser? – bateria de carro. É arte moderna. Claro, muita arte moderna é, como li em um comentário no blog de cultura Flavorwire, “lixo vazio, insípido que nos é empurrado por cafetões”, e com sua falta de coerência, o Nº 09 certamente finge ir naquela direção. O perfume só se salva graças à sua sinceridade incorrigível.

O melhor da coleção é o Nº 08. O diretor criativo Daniel Egneus e a perfumista Mathilde Bijaoui produziram uma cópia nada literal do curry em pó indiano. Ele tem uma abertura cítrica primorosa, mas como quase todo cítrico, infelizmente se esvai rápido demais. Mas há uma surpresa, logo na sequência: as ruas irresistivelmente perfumadas de Mumbai. Barracas repletas de canela, cominho, mel, chá preto... o perfume pode ser um pouco exagerado para a maioria. Certamente existem aqui habilidades sendo exibidas, e se você evocar e compactuar com a arte descomprometida, moderna e exuberante da Jacomo, não tem motivos para não ousar e usá-lo.

Tradução: Erika Brandão

Tradutor: Érika Brandão

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