Clima pesado de Wall Street pede perfumes leves e divertidos

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

O vazio começou para mim, como acredito que para a maioria de nós, com o visual. Onde moro, no bairro de Murray Hill, em Nova York, as lojas da Terceira Avenida ficaram vazias do dia para a noite. Você andava pela rua 34 e? "Espere. Não tinha uma loja aqui?" O dono tinha acabado de fechá-la e estava na calçada, observando. Ele me pegou olhando a cena, processando aquele vazio. "Quer ver?", perguntou. Paredes limpas, fios pendurados do teto como os cabelos da Medusa. Foi quando bateu o cheiro da recessão: primeiro o pó de gesso, depois o concreto (o Puissance Deux, de Gaultier, sem a baunilha). O vazio: a ausência das pessoas, do ar circulante, das camadas de plástico, dos compensados e dos carpetes com os quais nos cercamos.




A recessão, ou correção de mercado, ou o nome que estejamos dando à crise, criou cheiros tão variados quanto aqueles produzidos pelo ilusionismo turbinado de Wall Street que deu origem à crise. A mistura é diferente. Há menos fragrâncias, para começar. As vendas de perfumes caíram 7% este ano. Tenho tentado discernir uma correção olfativa nos novos perfumes de outono. Talvez estejam diminuindo a ostentação? Se Marc Jacobs e Coty, sua licenciada, perceberam a mudança de humor, eles não estão nos contando. Lola é uma granada frutada e suculenta, a trilha olfativa do seriado "Gossip Girl": uma festa nos seus braços, como se 2007 nunca tivesse acabado. Talvez Jacobs tenha descoberto algo. Usar algo frio, chique e anoréxico como L'Eau d'Issey talvez exija confiança demais. Talvez precisemos seriamente agora de uma salada de frutas divertida.

Eis o precedente histórico. Jean Patou criou Joy em 1930, no começo da Grande Depressão - era supostamente o perfume mais caro do mundo --, e eu juro que o senti na Quinta Avenida, semanas atrás. Em tempos de abundância, ele parecia um floral francês fora de moda, um diamante de cem quilates. Demais da conta. No verão de 2009, ele tinha um cheiro decidido, determinado e estranhamente adequado. Dava vontade de aplaudir.

Meus demonstrativos de investimentos chegam por e-mail, e apropriadamente têm cheiro de nada. Por outro lado, recentemente entrei num banco em Manhattan e na hora senti cheiro de reforma. Novo carpete, gesso fresco e computadores recém-desencaixotados. "Estamos bem", dizia a reforma. "Sólidos como uma rocha". Senti o cheiro do medo, ou ao menos um caso sério de estresse. Talvez as pessoas que ali trabalhavam não os tenham percebido. É difícil sentir um perfume quando você está prendendo a respiração.

Do meu prédio, no qual a administração acaba de baixar o aluguel do apartamento vizinho em 30%, além de dar um mês de graça, vejo passar um desfile de carros novos: Mercedes 550, Porsches Cayenne. Todos imaculados, brilhantes e bizarramente fora do lugar. Quem está comprando esses carros? Quem são seus donos? O cheiro de carro novo é real. Quando misturado ao couro de uma BMW, é um perfume de luxo. Na atual situação econômica, seu cheiro significa afronta. Podem festejar, Pirellis.

O verão mascarou o cheiro do colapso do mercado. Nova York em julho ainda tinha o cheiro de alsfato e de lixo por recolher - um acorde incrível, diga-se. Agora estamos nos aproximando de novo do vazio olfativo. Lembra de fevereiro? Meu amigo Mark veio me visitar. Largou o casaco numa cadeira e disse: "Ok, agora sei por que chamam isso de depressão". Porque todos estão deprimidos. Antes da correção do mercado, comprei os sapatos mais caros da minha vida, um lindo par feito de couro de cabra, da Brooks Brothers. Guardei-os na caixa original, em um saco de flanela com um alargador de cedro que também acabei comprando. Quando abro a caixa, percebo como nunca o preço e a masculinidade do perfume, como no Tobacco Vanille, de Tom Ford, ou no Lonestar Memories, da Tauer, ou então no 2 Man, de Comme des Garçons, com seu couro apimentado e cremoso. Se você não pode comprar os sapatos, provavelmente ainda pode pagar pelas essências.

Neste instante, eu usaria o Carnal Flower, de Frederic Malle, uma tuberosa que te ataca com um taco de beisebol numa mão e um bife cru na outra. Uma flor alva movida a energia nuclear. Ouvi histórias de gente que pediu sacos de papel sem marca para os vendedores da Hermès. Talvez a substância do cheiro finalmente conte mais que o rótulo. A Sean John Fragrances talvez tenha acertado; I Am King envolveu o materialismo hardcore do antigo Unforgivable em uma sorridente tangerina carbonada. Você poderia usar o sombrio e supercool Unforgivable quando tinha dinheiro para parecer sombrio e ultracool. Mas, por agora, prefiro a risada. E, se estivesse comprando o maravilhoso Prozac que é Un Jardin sur le Nil, o embalaria numa sacola Hermès. Suas gotas atomizadas de luz do sol caem em sua pele, e você as inspira. Se, na economia de hoje, o sentido da visão te levar para o buraco, o olfato vai te tirar dali.

 

Tradutor: Érika Brandão

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