Com cheiro de luxo inglês, o masculino Sartorial renova a perfumaria britânica

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Frasco do perfume Sartorial da perfumaria inglesa Penhaligon's
    Criadora: Penhaligon's Gênero: Masculino Avaliação:

O que já foi um dia verdade na cultura popular pode ter sido distorcido com o passar do tempo. Entre os europeus, Nova York ainda não apagou completamente a reputação que vem dos anos 60 e 70 de ser uma cidade violenta, suja e perigosa, embora a cidade esteja segura e em ordem há décadas, e hoje está mais bonita que nunca. Do mesmo modo, americanos e muitos europeus ainda não perceberam que Londres é melhor para os gourmands do que Paris – seus chefs vêm demonstrando mais talento e muito mais criatividade há pelo menos 20 anos.

A antiga reputação britânica de produzir perfumes inferiores aos perfumes franceses – até mesmo inferiores aos americanos, desde que a estrela de Estée Lauder começou a brilhar – continua intacta, mas, neste caso, merecidamente. Historicamente, os britânicos não só nunca valorizaram os perfumes como valorizavam a sua ausência. Os britânicos, há tempos têm a insensata ideia, que foi transmitida para os americanos, que homem não usa perfume. 


Ainda assim, existem alguns poucos momentos brilhantes na história da perfumaria britânica: Especialmente Jo Malone, uma irlandesa cujo trabalho contraria a ideia que boas e bem realizadas fragrâncias são tão raras para os britânicos quanto a raiva. A abordagem de Malone é tão “não-francesa” quanto se pode imaginar. A ideia de misturar fragrâncias, entretanto, é antiética segundo a filosofia francesa, que considera o perfumista um visionário único, e que cada obra de arte olfativa deveria figurar sozinha, pois misturar duas fragrâncias seria como misturar sinfonias – Ravel com Satie, por exemplo – cacofonia.


Mas alguns músicos discordariam, argumentando que é possível criar um mashup elegante de, digamos, Ravel e Jay Z. A marca Jo Malone permite que você faça a mesma coisa: que crie seus próprios mashups olfativos no próprio braço. Funciona porque os perfumes são feitos de um modo muito inglês, ou seja, são acordes simples, misturas de notas de matérias-primas geralmente de fácil identificação (rosa, flor de laranjeira…). E acordes simples tendo rosa ou flor de laranjeira como base funcionam perfeitamente bem juntos.


Outros perfumistas estão fazendo as suas partes para revolucionar a perfumaria inglesa. Lyn Harris, da Miller Harris, e Linda Jayne Pilkington, da Ormande Jayne, produzem perfumes mais tradicionais, mas com uma perspectiva mais moderna: as fragrâncias são complexas, trabalhos autônomos realizados a partir de materiais contemporâneos. Em boa medida, os esforços de Harris e Pilkington se opõem ao arcaico século 19, de marcas no estilo de Jane Austen como Penhaligon’s, conhecida pelas fragrâncias antiquadas que vêm em frascos ultra decorados. Bluebell é um exemplo particulamente bom da Penhaligon’s, em uma embalagem particularmente ruim: o tipo de perfume empertigado e turvo que o Príncipe Albert deve ter oferecido para a Rainha Victoria em 1887.


Mas adivinhe qual perfumaria está sofrendo a própria revolução interna? Penhaligon’s recrutou dois perfumistas de respaldo mundial, como Bertrand Duchaufour para criar uma nova linha de perfumes, engenhosamente metamorfoseando suas embalagens do século 19 em uma caixa bacana, preta, do século 21 (mas durante todo o tempo deixando facilmente reconhecível a marca Penhaligon’s), e apelidou o novo grupo de fragrâncias como coleção Anthology. Entre os novos perfumes está Sartorial.


Sartorial irradia as teias de aranha olfativas, além de reverenciar fragrâncias antigas da Penhaligon’s, e cria uma linha direta que sai da Inglaterra para a França.


Interessante, ele leva um pouco da Inglaterra consigo. Segundo Penhaligon’s, Sartorial foi inspirado nos cheiros das salas de costura de Norton & Sons, os alfaiates do número 16 na Savile Row, em Londres. Gostaria de sentir o cheiro daquele local, porque, primeiro, a história contada soa perfeitamente plausível, e segundo porque aposto que o cheiro é muito bom. Aposto que tem cheiro de algo possível de ser bebido.


A Penhaligon’s nos deu a fragrância de um brandy inglês, um digestivo, cor de ouro pálido – o tipo que pode ser encontrado em um copo sobre uma mesa encerada do século 18 em uma casa Edwardiana londrina. Sartorial tem cheiro de luxo, mas é um luxo inglês que esnoba a pompa egocêntrica do que há de pior no luxo francês e o luxo ultrassexualizado, banhado de sol e cheio de gel no cabelo que atualmente é quase obrigatório na Itália. Ele se mantém sóbrio, sereno e longe da obviedade de modo muito belo. 

 

E ele segue o estilo francês somente enquanto a fragrância é essencial. Não é nenhuma água-de-colônia tímida. É um perfume completo, criado para se adequar a um homem inglês. Suponho que poderiam dizer “um cavalheiro inglês”, embora os cavalheiros ingleses de hoje dirijam Range Rovers e voem de Virgin Atlantic para cuidar dos negócios em Shangai. Eles usam jeans e camisas Dolce & Gabbana. Se usarem Sartorial, estarão também usando um pedaço muito bom e completamente contemporâneo da Inglaterra.

Tradutor: Érika Brandão

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