Maison Tocca lança perfume que deixa a desejar pelos US$ 68 que custa

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Tocca Eau de Parfum in Bianca
    Criadora: Marypierre Julien Gênero: Feminino Avaliação:

Tocca é uma maison ítalo-americana cuja estética é extravagante e delicada, seguindo o estilo de Alice no País das Maravilhas. Só que essa Alice trabalha na Barclays ou no Tate Modern e mora em um pequeno e elegante apartamento em Islington. Ela lê a Vogue inglesa no Hyde Park, é convidada para as festas mais cobiçadas e, quando encontra a garrafa pequena com uma etiqueta dizendo “Beba-me”, dificilmente deixará de fazê-lo. Ela é inocente e ponderada, apropriadamente irônica. Tocca envolve seus produtos em embalagens azuis e retrô, que lembram porcelana inglesa ou os padrões de papel de parede da era vitoriana. Sua coleção de fragrâncias se enquadra perfeitamente neste universo, embora eu nunca saiba muito bem o que fazer com elas.

Para se garantir, Tocca escolhe bons perfumistas. Ellen Molner criou Stella e Florence, e eles convidaram Adriana Medina-Baez para criar Giulietta (um nome tão extravagante, e em tantos níveis, que a mente vai longe) e Cleopatra (que parece não relacionar o cheiro ao nome). O excelente Antoine Lie criou Brigitte, como a Bardot. Ah, Brigitte: excentricidade somada ao obrigatório toque de pretensão francesa, além de uma delicada nostalgia da época em que símbolos sexuais não deixavam suas gravações sexuais vazar no YouTube.


Os perfumes Tocca são leves e um pouco ingênuos, assim como a moda italiana pode ser ingênua: deliciosa mas um pouco provinciana, desconectada do que estão vestindo em Tóquio ou Los Angeles. Estas fragrâncias podem funcionar na Toscana, flanando alegremente pela rua. Estão corretamente combinando com as roupas da marca. É fácil visualizar o cliente levando um frasco de perfume que combina com uma saia envelope de seda pura cinza chumbo ou um vestido coral.

Mas quando aproximamos um pouco mais nossa lente, eles parecem infantis demais. São muito pastéis, evocam exageradamente uma pele empoada e branca como porcelana, a ponto de chegarmos a pensar que são fragrâncias criadas para bonecas. Talvez intencionalmente eles sejam bastante desfocados – canalizando com alegria o odor de flores, frutas e afins. Recentemente foi lançado o Bianca – imagina-se que não por causa de Bianca Jagger – que Marypierre Julien construiu sob a direção criativa de Gordon Finkelstein.

Bianca é um floral adocicado com um toque verde. Ele se destaca por contrastar com as velas aromatizadas da marca, que são outro problema por si só. Por exemplo: Tahoe reproduz fielmente o cheiro de neve fresca e ofuscante entre uma floresta de pinheiros. Aqui não há nada de extravagante. Ele é estimulante, e embala um murro na cara. Já vi as velas, evolta em pedaços de tecido azul-claro, queimando nos lavatórios de muitos restaurantes descolados, e pensei: “Ei, o que você está fazendo aqui?” Mas elas têm mais do que o fôlego necessário para a missão, apesar da aparência porque... bom, porque não são perfumes Tocca.

Eis a questão com as fragrâncias da Tocca. Bianca é leve, mas mais importante que isso, ela é indistinta. Um pouco ralo, um pouco químico, o perfume registra como uma pena e depois se esvai. Lembre-se do glamour marcante do Black Orchid de Tom Ford, um estrondo olfativo, se é que isso existe. Bianca é a anti-matéria do Black Orchid: um piquenique de meninas bonitas e sem muita coisa na cabeça, que pode ser muito divertido, mas que também te estimula a fazer um belo programa noturno, na cidade, com uma mulher fatal.

Até onde posso dizer, tudo isso acontece porque a maison simplesmente não está investindo em seus perfumes. Não quero nem imaginar o tamanho do orçamento que Finkelstein pode ter disponibilizado para Julien: Bianca não tem o cheiro de nada realmente bom dentre os materiais que ficam nas prateleiras dos laboratórios. Sei que a marca é descolada, mas 68 dólares deveria pagar bastante descolamento, e neste frasco de 50ml não encontrei tudo isso.

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