Tríade masculina da Odin é acessório de moda para público específico e indistinto

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Odin 03 - Century é um dos perfumes da tríade lançada pela loja Odin (18/02/2010)
    Criadora: Odin Gênero: Masculino Avaliação:

The Odins é a nova tríade de fragrâncias lançadas recentemente pela Odin de Nova York, a ultra chique cadeia de lojas de moda masculina. A primeira loja Odin foi inaugurada em 2004, no East Village de Manhattan. Outras logo abriram no SoHo e no West Village. Seus estoques estão lotados de camisas, calças e sapatos de estilistas emergentes cujos nomes somente os mais arrojados e dedicados frequentadores do bar do Hotel Rivington achariam familiares.

Este círculo social não me inclui. Na verdade, esta exclusão mostra exatamente qual o problema na hora de avaliar as três novas fragrâncias da Odin. Como criticar obras de arte criadas para um público requintado e escasso, uma espécie distinta filogeneticamente de fashionistas embuídos de uma estética arcana, que analisam com fervor e linguajar hermético o ato de usar um cinto Odin – sua marca, sua aparição na Vogue, em quais passarelas, na cintura de quem, em quais festas... Por outro lado, um cinto da Gap usado por mim evocaria neles a excitação analítica de uma fábula infantil.
 

Este problema materializa a questão central da crítica em si. Um perfume deve ser julgado pelo seu sucesso junto ao seu alvo demográfico? Poderíamos aplicar uma teoria reducionista, nos moldes do pensamento de Milton Friedman (economista americano): “bom é basicamente qualquer coisa que gere a maior quantidade de dinheiro, ou neste caso, alcance a maior penetração no mercado dos consumidores de perfumes que poderiam passar por amigos íntimos da Anna Wintour". Ou deveríamos aplicar uma teoria mais marxista? Some os custos da matéria-prima e da mão-de-obra para o produto que está sendo vendido e pare ali.

Mas há outras teorias quanto ao valor dos produtos, baseadas em julgamentos estéticos de estilo, originalidade, experiência técnica, etc. Vamos aplicar uma delas para constatar como os perfumes Odin podem ser desconcertantes.

As fragrâncias Odin são um empreendimento realizado entre Odin e a agência de desenvolvimento de marcas Purpose-Built. Os diretores de criação dos perfumes são Paul Birardi e Eddy Chai, proprietários da Odin de Nova York, e Larry Paul e Kelly Kovack, donos da Purpose-Built. Duas fragrâncias da coleção, 01 Nomad e 03 Century, foram construídas somente pelo perfumista Kevin Vespoor, pois a outra, 02 Owari, ele fez em parceria com Pierre-Constantin Gueros. Os três foram lançados no final de 2009. Quanto às suas classificações, 01 é um perfume gourmand, 02 um cítrico e 03 um amadeirado.

Agora as coisas começam a se complicar. Tiremos o 01, o perfume de menor sucesso dentre eles. Logo de primeira, ele tem cheiro de algum limpa-vidros criado para as janelas das propriedades de Ian Schrager (hoteleiro americano que criou o conceito de hotel boutique) – um intencionalmente sintético e minimalista, além de um luxo olfativo intimidante. É para quem acha que a obra de Le Corbusier é encantadora.

Com isso, nos resta 02 e 03. 02 é um agradável cítrico que ressoa no tom de uma fruta ainda verde – uma deliciosa mexerica verde, com óleos da casca de cítricos. 03 é uma madeira agradável e tenra, sem ser exagerada ou tímida demais. Ambos são lineares, gente hypada e descolada, como as modelos que você vê ao folhear as páginas de uma revista de boa qualidade. Lá estão elas, em suas campanhas publicitárias. Atraentes e cativantes.

Mas essencialmente, como a maioria das pessoas superdescoladas e lindas, 02 e 03 têm pouco a dizer. Eles têm boa fixação na pele – na verdade, duram um bom tempo – e boa estrutura (eles são muito coerentes, então ganham pontos pela sua competência técnica), mas não têm volume nenhum. Nenhum. É preciso estar a 3cm de distância de quem está usando o perfume para poder senti-lo. E quando sente, é como o ruído branco.

Estes perfumes funcionariam perfeitamente em ambientes fechados, já que não possuem caráter próprio e simplesmente adicionam um agradável brilho de sofisticação. Longe de trabalhos individuais como Rose Barbare de Guerlain ou Bigarade Concentree de Frederic Malle, estes são acessórios de moda. Vire a página e eles somem de vista. Mais tarde, o que pode ficar na sua memória é um bom arquétipo, mas nada além disso. Odin quer que seja assim? E os clientes da Odin? Talvez. Os outros jamais pensariam em revisitar toda a extensão do falso brilho descolado, hype, indistinto.
 

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