Fragrância de perfumista independente se funde à pele e brilha silenciosamente

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Parfums des Beaux Arts Avaliação:

A qualidade das coleções de fragrâncias especializadas varia imensamente. Diretores de cinema que produzem a partir de muito pouco capital, financiados por cartões de crédito, e que filmam na casa dos pais criam, geralmente, filmes excêntricos. Do mesmo modo, perfumistas independentes costumam produzir coleções excêntricas. Há os perfumes políticos - totalmente naturais, 100% orgânicos - que tendem a cheirar ideologias engarrafadas; coleções temáticas ("Japan"); e o levemente trivial resultado de uma perscrutação global pelos mais fabulosos materiais. Se estes cheiros são sempre inferiores aos perfumes superiores - os Dior e os Tom Ford - é porque a criação de perfumes não é uma arte do faça-você-mesmo. É uma arte dolorosamente difícil, que requer profissionais treinados com acesso aos técnicos e às matérias-primas necessárias, e mesmo eles podem fracassar. A maioria dos criadores de fragrâncias especializadas simplesmente faz trabalhos esquecíveis.




Uma exceção é Dawn Spencer Hurwitz. Uma perfumista independente de Boulder, no Colorado, com uma maison chamada Parfums des Beaux Arts, ela produziu uma coleção com uma estética muito específica. Através de design ou não, Dawn cria fragrâncias para o século 21 que têm como exemplo o "grande minimalismo" do perfumista Jean-Claude Ellena: a produção de fragrâncias inteligentes que sutilmente se fundem à pele, ao invés de sentar em cima dela com egoísmo; que brilham silenciosamente ao invés de gritar.

O primeiro perfume de Dawn que senti há muitos anos foi o Pamplemousse, e era excelente. Um grapefruit revigorante, sedutor e penetrante, que se tornava levemente mais sombrio conforme evoluía para um caráter mais bergamota/laranja, lembrando um caco de vidro sob uma luz halógena que ia perdendo sua intensidade gradualmente. Ele vai do efervescente ao hipnótico. As moléculas cítricas são tão leves e animadas quanto bolas de pingue-pongue em um terremoto, e acabam desaparecendo ou se decompondo, mas aquelas no Pamplemousse lhe rendem o prazer de uma água tônica de quinino, cuja difusão continua a ser surpreendentemente primorosa. Reconhecidamente, Pamplemousse não é um trabalho de arte complexo como o 2, do Comme des Garçons. Mas ele não precisa ser. Suas moléculas sibilam na pele como uma brisa adstringente, e o efeito é penetrante.

Dawn Spencer Hurwitz tem duas abordagens: diretamente literal e diretamente abstrata. As fragrâncias que estão na primeira categoria geralmente são boas e merecem ser experimentadas. Sienna é uma canela literal, embora a perfumista tenha retirado exatamente aquilo que fazia referência a comida, a fim de torná-lo um perfume usável. O condimento pronunciado abranda em 20 minutos e dá lugar ao cheiro de uma entrada de casa bacana e cheia de sombra. Prince não foi tão bem sucedido, é uma fragrância marinha condimentada, talvez um pouco inexplicável, que talvez funcionasse melhor em um desodorante sólido masculino. Quinacridone Violet é uma mistura de geléia de damasco com vinho de ameixa japonesa, e enquanto ele sofre um pouco por causa do aspecto viscoso, continua interessante como exemplo de um experimento de Dawn Spencer Hurwitz dentro do que ela chama de "sinestesia da cor no odor". Enquanto Umber: Bois de Rose não está no mesmo nível que o espetacular e esfumaçado Rose Poivree, do The Different Company, ainda há espaço no mundo dos perfumes para uma rosa agradável.

Por mais estranho que pareça, os abstratos são muito melhores. O The Color Orange é uma divertida pop art. Sua breve nota de saída de acetona imita a efervescência de uma lata de refrigerante sendo aberta: nos moldes de Andy Warhol, o resultado é a foto de um refrigerante sabor artificial de laranja. Se você é dono de um loft em qualquer canto descolado e desejado, este é seu novo perfume para o dia. Blue Green: Arnica é mais complexo e avant-garde, tem um cheiro que faz lembrar uma obra de Richard Serra, feita com folhas metálicas. Ele transcende o paradigma da água limpa de l'Eau d'Issey para compor uma escultura olfativa notavelmente usável. Celadon: A Velvet Green, por contraste, é maravilhosamente agradável. Seus aspectos não-figurativos foram suavizados e transformados em doçura; ele permanece, murmurando frutose em sua pele.

Paremos no Viridian. É um dos melhores exemplos da verdadeira ruptura do minimalismo com a perfumaria francesa clássica. Aqui, também, não há referências naturais - Viridian é compulsivamente agradável, transmitido por um murmúrio fascinante que penetra na eletricidade atmosférica do ambiente. Talvez o modo de explicar seria dizendo que se Los Angeles emitisse um perfume, seria ele: o cheiro da poeira do deserto do Runyon Canyon Park nas colinas de Hollywood; de ozônio e mar; dos vidros dos escritórios silenciosos. Pode ser fascinante, mas eu o adoro o mesmo tanto pelo simples fato de ser impossível descrevê-lo com precisão.

Viridian
Parfums des Beaux Arts
dshperfumes.com
 

Tradutor: Erika Brandão

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