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Chuvas

É possível preparar minha casa para suportar essas fortes chuvas de verão?

Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz

Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz

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    Manter uma área do jardim capaz de absorver a água da chuva evita enchentes. Há sistemas que tornam a infiltração mais rápida, impedindo que o solo fique encharcado

    Manter uma área do jardim capaz de absorver a água da chuva evita enchentes. Há sistemas que tornam a infiltração mais rápida, impedindo que o solo fique encharcado

Durante o verão é quando acontecem as maiores chuvas no nosso país. Vemos por todo canto chuvas de grande intensidade e catástrofes. E embora tenham acontecido catástrofes causadas pura e simplesmente por chuvas de intensidade muito acima da média, em muitos casos as tragédias são responsabilidade de problemas no saneamento básico das cidades, por construções mal projetadas ou construídas em locais de risco.

Em primeiro lugar, o que é uma chuva acima da média?

As medições dos índices pluviométricos começaram a ser feitas recentemente. Dependendo do país ou da cidade encontramos uma data diferente, mas em São Paulo e no Rio de Janeiro, as medições se iniciaram apenas em 1943. Logo, a média considerada em todos os cálculos é a média calculada ao longo desses 68 anos. É realmente muito pouco tempo comparado à idade dessas cidades.

Quando dizem que 2010 foi o ano mais chuvoso da história, devemos entender que é o mais chuvoso desde 1943. O antigo recorde era do ano de 1947. Ou seja, é razoável assumir que houve muitos outros anos mais chuvosos do que 2010 ao longo da história.

Para que servem as medições dos índices pluviométricos?

Quando os projetistas de hidráulica vão projetar os sistemas de coleta das águas das chuvas (bocas de lobo, guias, sarjetas, piscinões e até a calha para a sua casa), eles usam estes dados. Consideram a média de chuva para a região e ainda consideram os índices máximos dos últimos 5, 10 ou 20 anos.

Para projetar as calhas e condutores verticais para a cobertura de uma casa, deve-se considerar a chuva máxima dos últimos 20 anos naquela região para sob pena de, durante uma chuva muito forte, a calha transbordar ou os condutores não serem suficientes para escoar toda a água.

É comum utilizar uma fórmula simples para o cálculo do tamanho dos condutores: 1 m² de telhado = 1cm² de condutor
Este é um cálculo simplificado, que funciona na maior parte dos casos, mas não considera o local, nem o histórico de chuvas. Logo, pode falhar algumas vezes ao longo da vida útil da sua casa.

A chuva na área externa: absorção e vazão da água

A área externa de uma casa é onde deve estar a primeira preocupação com relação à chuva. Esta área deve estar preparada para suportar e dar vazão à água. Se esta área for pavimentada, verifique se os caimentos do piso estão corretos. O piso não pode ser 100% plano, precisa ter caimentos para conduzir a água até os ralos ou grelhas (que vão levar a água à rede pública de coleta).

As áreas pavimentadas não absorvem a água, ou seja, ela rapidamente chegará aos ralos e à rua. Portanto, caimentos adequados são fundamentais para que o nível da água não suba e o interior da sua casa seja atingido.

Se houver jardins na área externa da sua casa, verifique o que acontece com a água que cai nesta área. Ao contrário da parte pavimentada, a água que cai num jardim infiltra no solo e por isso os jardins são tão benéficos para o sistema de águas pluviais das cidades. Ao infiltrar, esta água leva mais tempo para atingir o sistema público, que fica menos sobrecarregado e as enchentes tendem a diminuir. Logo, se for possível, tenha um jardim em casa.

Cuidados para não encharcar o jardim

Entretanto alguns cuidados devem ser tomados para não encharcar o jardim. A água pode ser recolhida e jogada no sistema público de águas pluviais ou pode apenas infiltrar no solo. No primeiro caso, uma medida comum é colocar abaixo do jardim tubos específicos para a absorção da água ou ainda tubos de PVC perfurados na horizontal e envolvê-los em uma camada de brita coberta com mantas para drenagem. Desta forma, a água captada pelos tubos será levada para a rede pública de águas pluviais.

Para permitir que a água infiltre no solo, pode-se utilizar o sistema de brocas infiltrantes, ou seja, buracos no terreno preenchidos com brita que permitem a rápida absorção da água. Há outras formas de aumentar o escoamento da água, mas estas são as mais comuns. Fazendo isso, o seu jardim suportará as fortes chuvas.

Cada vez mais comuns em projetos residenciais de pequena e grande escala, as caixas de acumulação são uma opção economicamente viável e ecologicamente correta. Estas caixas nada mais são do que reservatórios que armazenam a água da chuva para o posterior uso em rega de jardins ou nos vasos sanitários. Desta forma a água da chuva não sobrecarrega os rios da cidade e não gastamos água limpa e tratada para fins menos nobres.

Atenção extra com as contenções

Por fim, ainda tratando das áreas externas, deve-se tomar muito cuidado com os taludes e contenções, também conhecidas por muros de arrimo. Ambos devem ser muito bem calculados. Enquanto um caimento mal feito no quintal pode causar problemas como um pouco de água entrando em casa numa chuva mais forte, uma contenção mal feita pode soterrar uma construção.

Para o cálculo, os especialistas consideram o local, a incidência de chuvas, a resistência do solo e a altura das contenções. No caso de um talude, consideram ainda o seu formato, a altura e o comprimento. Chame sempre um especialista para projetar os taludes e muros de arrimo de sua casa.

Com essas medidas simples, mas de grande responsabilidade, sua casa ficará resguardada das chuvas e a cidade ainda agradece. No próximo artigo vamos tratar de medidas a serem tomadas para proteger a construção em si, considerando em especial as partes mais críticas como telhados, lajes, caixilhos e portas.

Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz

Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz são arquitetos formados pela FAU-USP e sócios do escritório Forte Gimenes Marcondes Ferraz (www.fgmf.com.br)

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