Eixos, setores e quadras: entenda a racionalidade do Plano Piloto

ISIS NÓBILE
Colaboração para o UOL

Fazer nascer uma cidade. Quando o projeto do urbanista Lucio Costa venceu os outros 62 inscritos no concurso público lançado pelo então presidente Juscelino Kubitschek, esse era o desafio. Três anos depois, em 1960, Brasília foi inaugurada. Naquela época, a cidade foi divida em setores e quadras que permanecem até hoje.

O traçado de ruas de Brasília obedece ao Plano Piloto implantado pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap). A empresa, criada especialmente para o grande empreendimento, era encarregada de projetar a nova capital federal a partir do anteprojeto de Lucio Costa. Na época, Oscar Niemeyer era o chefe do Departamento de Urbanismo e Arquitetura (DUA/Novacap) da empresa.

De acordo com o especialista em arquitetura brasileira Luiz Recamán, que é professor da Faculdade de Arquitetura da PUC de Campinas e pesquisador da Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, Lucio Costa apresentou uma solução clara e simples que resolvia o programa do concurso. “Ele criou a cidade com um zoneamento funcional. As funções são separadas na cidade”, explica. “É uma maneira de simplificar a realidade”, completa.

Setores

O Plano Piloto da cidade possui dois eixos - o Monumental e o Rodoviário - dispostos em forma de cruz, abraçados pelo Lago Paranoá e por uma área verde. No Eixo Monumental estão a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes, a Catedral Metropolitana e a sede do Governo do Distrito Federal. Nessa área, seguindo a lógica, localizam-se os setores comerciais - bancário, de escritórios e comercial. A leste do Eixo Monumental estão os setores culturais da cidade - bibliotecas, teatros, museus.

Ao longo do Eixo Rodoviário, conhecido pelos locais como Eixão, encontram-se os setores residenciais compostos pelas famosas quadras residenciais com seus blocos de comércio e serviços. Os espaços de lazer, como clube esportivos, foram dispostos, ao redor do lago. Nessa região também foram implantadas áreas de moradia, chamados residencial Lago Sul e Lago Norte.

Para simplificar mais ainda, os nomes dos setores foram baseados nos pontos cardeais, com referência na interseção do Eixo Rodoviário com o Monumental. A nomenclatura foi encurtada com siglas: Comércio Local Norte/Sul e Sudoeste (CLN/ CLS/ CLSW); Setor Comercial Norte/Sul (SCN/ SCS); Setor de Clubes Esportivos Norte/Sul (SCEN/ SCES).

O Setor de Difusão Cultural do lado norte, ou SDCN, contém o Teatro Nacional; o sul –SDCS - tem a Biblioteca Nacional e Museu Nacional. No O Setor de Diversões Norte (SDN) é endereço do Shopping Conjunto Nacional, mas há também um Setor de Diversões Sul (SDS ou Conic).

Outros setores importantes que compõem a cidade são o Setor Hoteleiro Norte/Sul (SHN/ SHS); o Setor de Hotéis de Turismo Norte (SHTN); Setor Médico Hospitalar Sul (SMHS), Norte (SMHN) e Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). E, é claro, as Superquadras, setores residenciais Norte/Sul e Sudoeste (SQN/ SQS/ SQSW), conhecidas e copiadas internacionalmente.

“A ideia era, justamente, que a localização fosse fácil”, conclui Suellen Fernandes Dantas, bibliotecária da seção de pesquisa do Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF). Para Recamán, o problema dos códigos é que eles não possuem um significado de fácil captação. “As siglas são extremamente racionais”, diz, “as pessoas costumam identificar os lugares com nomes que escolhem”.

Quadras

Dentro dos setores residenciais, as quadras foram nomeadas seguindo o mesmo raciocínio lógico. No Memorial do Plano Piloto de Brasília, o próprio Lucio Costa explica: “Quanto à numeração urbana, a referência deve ser o Eixo Monumental, distribuindo-se a cidade em metades Norte e Sul, as quadras seriam assinaladas por números, os blocos residenciais por letras, e, finalmente, o número de apartamentos na forma usual, assim, por exemplo: N-Q3 - L – ap. 201. A designação dos blocos em relação à entrada da quadra deve seguir da esquerda para a direita, de acordo com a norma”.

Atualmente, a cidade continua divida por esses setores. “No Setor Bancário, encontra-se até um ou outro restaurante, mas não há lojas. Na rua das farmácias, existem apenas farmácias”, descreve Suellen Dantas. “Essa divisão torna mais fácil, de verdade, a localização do que precisamos”, opina. “Brasília segue a tradição moderna de cidade funcional planejada. Seu espaço foi racionalizado”, expõe Recamán.

No entanto, a cidade foi elaborada estimando-se que teria cerca de 500 mil habitantes no ano 2000. Em janeiro desse mesmo ano, mais de dois milhões de pessoas - quatro vezes mais que o planejado - já viviam em Brasília de acordo com censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Algumas pessoas acham estranho o trânsito que existe em Brasília se comparado ao tamanho da cidade”, pondera Suellen Dantas. A cidade feita para o automóvel já paga o preço da opção.

Agradecimentos: Arquivo Público do Distrito Federal

Bibliografia
“Lucio Costa: Registro de uma Vivência”, São Paulo, Empresa das Artes, 1995
“Relatório do Professor Lucio Costa – Plano Piloto”
“Edital para o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil”

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