Pensada nos mínimos detalhes, decoração padroniza gosto e personalidade

Steven Kurutz
Do The New York Times, em Nova York

Nos anos 80, Kurt Andersen, romancista e locutor de rádio, costumava escrever matérias como freelancer para revistas de arquitetura, trabalho que fez com que ele entrasse nas casas de algumas pessoas muito ricas. 

“Eu ficava perplexo. Elas sempre tinham como decoração os mais perfeitos livros sobre arte”, conta Andersen ao se lembrar do quão óbvio era as casas terem sido decoradas por outra pessoa que não seus moradores.  

“Talvez todas aquelas pessoas tivessem interesse no mesmo livro do Botero para mesa de centro”, acrescenta, “mas acho que não”.

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  • http://mulher.uol.com.br/casa-e-decoracao/enquetes/2012/08/02/a-decoracao-tem-padronizado-as-casas-das-pessoas.js

Desde então, a casa decorada com deliberada premeditação tornou-se quase que um lugar-comum, particularmente em cidades como Los Angeles e Nova York, onde tipos criativos se reúnem. “Não são só os ricos hoje em dia”, conclui. “Somos todos nós”.

Como Andersen ressalta em um recente artigo publicado pela revista norte-americana "Vanity Fair", no qual trata de forma mais abrangente a estagnação cultural, milhões de americanos são agora “decoradores amadores, que prestam uma atenção meticulosa, como nunca antes, aos detalhes e significados do design e da decoração de suas casas, roupas, utensílios, refeições, hobbies e de muito mais”, aponta.

Como prova deste fenômeno, basta consultar uma das muitas revistas ou blogs de design, como o "Apartment Therapy", que trazem fotos de casas projetadas até o último detalhe. Estudando estes espaços, é impossível não notar que a decoração parece ter pouca relação com o verdadeiro estilo de vida das pessoas: cabeças de veados adornam paredes de pessoas que - é quase certo - não caçam; máquinas de escrever vintage repousam sobre escrivaninhas pequenas demais para serem funcionais; livros arrumados nas prateleiras pela cor, para refletir alguma percepção de que aquilo foi bem pensado.

Decoração "perfeita demais" pode se tornar clichê
Veja Álbum de fotos

Certinho demais

Elaine Miller, que escreve o Decorno, um blog sobre design com uma língua afiada, acredita que este tipo de exibição calculada é, em grande medida, o resultado de vivermos por meio das mídias sociais.

“As pessoas agem, de maneira insana, premeditadamente”, defende Miller. “Elas vivem como se estivessem sempre sendo vigiadas. Até suas casas são uma performance”.

Miller cita como exemplo o modo como blogueiros de design e usuários do Pinterest ultimamente vêm ficando obcecados com o entretenimento. 

“É essa volta aos anos 50 e 60, quando as mulheres vão dar grandes festas”, ela disse. “Elas têm um carrinho de bebidas e estão prontas para entreter você.”

Ah, o carrinho de bebidas. Se alguma coisa exemplifica a casa premeditadamente decorada, pode ser ele. Evocando um glamour mítico de Hollywood, o carrinho de bebidas revela que os que ali habitam levam a vida como um colunável em uma foto do Slim Aaron e estão constantemente se divertindo em casa, embora na verdade ele seja um objeto cenográfico que, na maior parte do tempo, serve para acumular pó. (Este repórter deveria saber: dos três móveis que ele tem em sua sala, um deles é um carrinho de bebidas que ainda aguarda sua primeira festa.)

Mas com tantos de nós almejando ser Dorothys Drapers amadores (e publicando as evidências em blogs sobre design), é inevitável que ideias que já foram frescas um dia, como o carrinho de bebidas, acabem se tornando clichês. Clássicos, como cadeiras Barcelona e luminárias Arco, hoje estão tão batidos que é impossível possuí-los sem se sentir uma vítima do design.

  • Eric Striffler/ The New York Times

    Objetos vintage são uma febre, mas eles combinam com sua personalidade e com o estilo da casa?

"Design Victims"

Pelo menos um Tumblr popular construiu toda a sua identidade ridicularizando a presença desses clássicos nas casas que aparecem nos blogs. O site, cujo nome é impublicável aqui, evoca uma amplo espectro de clichês do design (da cadeiras Womb, de Eero Saarinen, ao “terrário que contém uma pequena coleção de suculentas sobre uma pilha de livros”). Mas mesmo acessórios decorativos aparentemente incomuns - como um móvel de fichas catalográficas de biblioteca - são expostos à exaustão, ilustrando o circuito já-vi-já-conheço de feedbacks que é familiar a qualquer usuário do Pinterest.

Será que as gerações passadas eram deliberadamente conscientes de si na hora de decorar suas casas? Será que simplesmente não compraram aquilo de que gostavam ou de que fariam bom uso e os mantiveram durante décadas?    

Miller concordou com a teoria – até certo ponto. “Até os meus avós compravam os mesmos lustres que seus vizinhos”, assente. “A diferença era que não estavam tentando impressionar. Apenas queriam iluminar suas casas”.

E em tom de escárnio, ela faz um apelo: “será que as pessoas podem parar de tentar impressionar? Podemos só relaxar”?

Provavelmente não. Há 25 anos você podia ver o interior das casas de seus amigos e vizinhos, além de membros de sua família estendida, e era mais ou menos isso. Agora existem online inúmeras imagens de interiores perfeitos feito pinturas para atiçar os seus sentidos de inveja e aspiração.

Andersen compara a enxurrada de design acessível através do computador ao pornô online em seu potencial para influenciar comportamentos: “as pessoas veem imagens da moda e dizem ‘vou experimentar isso’”.

Ele mesmo admitiu ter caído nessa cilada.

Anos atrás, Andersen comprou uma edição antiga da revista Life, cuja capa era sobre o assassinato do presidente John F. Kennedy. “Eu a coloquei sobre uma mesinha em meu banheiro. Por que está ali? É um elemento cenográfico. Eu não vou ao banheiro e fico lendo aquilo.”

Tradutor: Erika Brandão


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