As paredes de concreto da Casa G+A contam uma história de respeito à arquitetura. Trata-se de uma construção de 1961, projetada pelos arquitetos Carlos Lemos e Eduardo Corona, que constitui um dos mais emblemáticos exemplares modernistas na capital paulista, em seu franco emprego do concreto armado deixado à vista, uma ênfase à estrutura.
Cinquentenária, a residência passou por uma mudança de proprietário, o que implicou em novo programa espacial e uma necessária reforma em pontos danificados pelo tempo. E esse trabalho foi designado ao escritório Stuchi&Leite Projetos, em 2010.
Situada no Jardim das Bandeiras, zona oeste de São Paulo, em um terreno com mil metros quadrados, a casa caracteriza-se pelo inusitado tratamento formal do corpo dos dormitórios. Diante dos quartos, no piso superior, a laje pergolada de grande profundidade é suportada por empenas triangulares de concreto apoiadas sobre o solo em pontos únicos . ”Como se fosse uma aba de boné”, observa Carlos Lemos.
A disposição do piso térreo, que abriga as áreas sociais e de serviço, ao longo de quase toda a frente do lote, proporcionou a criação de um grande jardim suspenso, o terraço para o qual se voltam os dormitórios. Assim, resumindo os traços arquitetônicos, Carlos Leite descreve a obra, como “uma casa que se destaca pela relação íntima interior-exterior e pelos seus jardins suspensos, mas que tem como sua grande marca a empena triangular em concreto – um belo pórtico imagético”.
Reforma
A reforma empreendida procura respeitar ao máximo o projeto original. As intervenções buscaram o restauro do concreto, que apresentava patologias diversas, a substituição dos encanamentos da rede hidráulica e atender às demandas dos novos moradores – um casal de advogados com dois filhos adolescentes. “Apesar de não ser oficialmente tombada, a casa é um patrimônio da arquitetura moderna”, afirma Leite. Dessa forma, todos os novos elementos foram feitos com outros materiais – pedra e madeira –, para não concorrer com a arquitetura original de concreto e vidro.
Também foram construídas uma raia para prática de natação e uma sala de carteado, dedicada às partidas de pôquer, que utiliza mesa profissional e recebeu estrutura com parede de pedra e pergolado de madeira. Também à estrutura original foi acrescentada uma área para churrasqueira, situada numa edícula. E o jardim elevado deixou de ser acessível somente através dos quartos, com a construção de uma escada tipo “Santos Dumont” (com inclinação acentuada e degraus alternados em direita e esquerda). O acesso tem lugar perto da raia e o terraço ganhou prolongamento com ofurô, instalado sobre a garagem.
Por fim, o painel cerâmico - obra do artista plástico Lula Cardoso Ayres - foi totalmente restaurado pelas arquitetas Fernanda Craveiro e Mariana Palos. O resultado da reforma revelou-se muito positivo e deixou satisfeito o autor do projeto original, Carlos Lemos, que enfatiza: “A casa tem 50 anos e ainda é nova”.