Orientação sexual na adolescência pode fazer a diferença na vida adulta da mulher

ROSANA FERREIRA
Editora-assistente de UOL Estilo Comportamento

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    Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil, a idade média de iniciação sexual está em torno dos 15 anos, ou seja, em idade escolar

    Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil, a idade média de iniciação sexual está em torno dos 15 anos, ou seja, em idade escolar

Os pais, a escola e o ginecologista são fundamentais para a boa orientação sexual na adolescência. Isso pode refletir fazer a diferença na vida adulta da mulher, segundo a ginecologista e obstetra Barbara Murayama, especializada em endoscopia ginecológica pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e titulada pela Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

A afirmação ganha mais importância quando se consulta os dados do Ministério da Saúde: no Brasil, a idade média de iniciação sexual está em torno dos 15 anos, ou seja, em idade escolar. “O que justifica a necessidade de realizar ações de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST) e HIV/Aids à população de adolescentes e jovens escolares”, diz a ginecologista.

Em entrevista ao UOL Estilo Comportamento, ela afirma que a masturbação ainda é tabu na vida das meninas. “A orientação que costumo passar é a necessidade de conhecer o seu próprio corpo muito bem para poder ter e dar prazer a alguém durante um ato sexual”, afirma. Mas o diálogo com os pais, segundo Barbara, ainda é o melhor caminho para filtrar a avalanche de informações que permeia a vida dos adolescentes atualmente. Leia abaixo trechos da entrevista.

 

UOL Estilo Comportamento - Quando deve ocorrer a primeira visita ao ginecologista?
Barbara Murayama - Não existe data precisa, mas, assim que a menina começar a apresentar os primeiros sinais da puberdade, como nascimento dos pêlos pubianos e das mamas, já pode ser um bom momento. Esses acontecimentos, muitas vezes, vêm acompanhados de dúvidas. Por isso, com o auxílio de uma profissional, a mãe pode ter mais respaldo para transmitir segurança para a menina durante essa transição. Caso esse período passe, o ideal é que, a partir da primeira menstruação, as visitas se tornem rotineiras.
UOL Estilo Comportamento - A mãe deve entrar junto com a filha no consultório médico?
Barbara - Não existe regra. Isso deve ser discutido com cada menina e com cada mãe. Algumas meninas preferem a mãe junto delas, enquanto outras preferem entrar sozinhas. O importante é deixar o canal aberto para que a menina se sinta à vontade para tomar essa decisão, sem repressão.

UOL Estilo Comportamento - Quais são as orientações que um ginecologista costuma passar para uma paciente adolescente no consultório?
Barbara - Após conversar com a menina e saber um pouco sobre ela, eu procuro focar as orientações de acordo com o momento que ela está passando. Por exemplo, para uma menina de 11 anos, que está começando a menstruar, mas ainda não tem relações sexuais, muitas vezes nem beijou na boca ainda, irei explicar sobre higiene íntima e as mudanças que acontecem no corpo nesta fase, como a secreção vaginal que é mais evidente, as cólicas que podem aparecer e os fluxos menstruais. Por outro lado, para uma menina que já iniciou ou que eu percebesse que já está pensando em iniciar sua vida sexual, é preciso explicar sobre DST (doenças sexualmente transmissíveis), uso de preservativos e métodos anticoncepcionais. Sempre de uma forma suave e clara, deixando um canal aberto para que a menina tenha confiança.

UOL Estilo Comportamento - Em relação à educação sexual, qual o papel do ginecologista? Como ele pode ajudar nessa questão?
Barbara - O ginecologista, como médico da mulher em todas as fases de sua vida, exerce papel primordial, pois tem informações de qualidade sobre os assuntos que envolvem esse tema. É importante, em todas as consultas, que o ginecologista se mostre aberto a esclarecer dúvidas sobre a atividade sexual, doenças sexualmente transmissíveis e métodos anticoncepcionais, entre outros assuntos. Cabe ao profissional fornecer informações médicas e epidemiológicas sobre gravidez na adolescência, transmissão de doenças etc. Essas informações devem ser introduzidas nas consultas de rotina e sempre que a paciente trouxer dúvidas.

UOL Estilo Comportamento - Como lidar com a timidez típica do adolescente na hora de falar sobre sexo? Como você lida com isso para obter informações importantes?
Barbara - É preciso ganhar a confiança da adolescente, como a de qualquer paciente, em qualquer idade. E isso, muitas vezes, leva tempo. Nem tudo precisa ser conversado na primeira consulta. Geralmente, em uma primeira consulta apenas conversamos sobre assuntos diversos, antecedentes médicos e familiares. E deixamos o exame ginecológico e temas como sexo para uma próxima visita, quando a menina se sentir mais à vontade.

UOL Estilo Comportamento - Qual é a maior dúvida das meninas?
Barbara - O início das menstruações nem sempre é regular. Muitas vezes, a menstruação adianta ou atrasa um pouco. Isso - e também os corrimentos - costuma gerar dúvidas. Quando começam a menstruar, as meninas passam a ter secreção vaginal em maior quantidade. A secreção tem como finalidade lubrificar a vagina e isso pode ser confundido com corrimentos causados por fungos ou bactérias. Por isso, sempre que houver sintomas como esse é preciso de uma avaliação ginecológica.

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    "A orientação que costumo dar é a necessidade de conhecer o próprio corpo muito bem para poder ter e dar prazer a alguém durante o ato sexual", diz médica

UOL Estilo Comportamento - Atualmente, as meninas estão perdendo a virgindade com que idade?
Barbara - Segundo dados retirados do site do Ministério da Saúde, no Brasil, a idade média de iniciação sexual está em torno dos 15 anos, ou seja, em idade escolar, o que justifica a necessidade de realizar ações de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST) e HIV/Aids à população de adolescentes e jovens escolares. De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (Dezembro, 2007), foram identificados 54.965 casos de Aids, sendo 10.337 entre jovens de 13 e 19 anos e 44.628 entre os de 20 e 24 anos. É importante ressaltar que o número de casos entre os jovens de 13 a 19 anos vem crescendo desde o início da epidemia.

UOL Estilo Comportamento - Masturbação ainda é um tabu? Qual orientação que se pode dar para as adolescentes?
Barbara - Sim, a masturbação ainda é um tabu, principalmente para as meninas. A orientação que costumo dar para minhas pacientes é a necessidade de conhecer o seu próprio corpo muito bem para poder ter e dar prazer a alguém durante um ato sexual. E, para se conhecer, é preciso não só ter noções da anatomia do corpo feminino, ensinamentos esses que são - ou devem ser - ministrados no colégio, mas também saber onde fica cada parte e como esse órgão reage ao toque. O conhecimento e o toque do próprio corpo também são importantes quando se fala em autoexame das mamas e percepção de verrugas vaginais em estágios inicias. Ou seja, independentemente do objetivo, seja ele de prevenção de doenças ou prazer, é indispensável que a menina conheça seu próprio corpo.

UOL Estilo Comportamento - A iniciação sexual da adolescente ainda é vista com receio e preocupação pelos pais, diferentemente do que ocorre em relação aos meninos. E muitos pais protelam a ida ao ginecologista com medo de “incentivar” o sexo. Comente essa questão.
Barbara - O ginecologista tem um papel imparcial, no sentido de fornecer informações de qualidade para uma vida ginecológica, sexual e, depois, obstetrícia tranquila e saudável. O que se percebe é que meninas mais bem informadas - não só pela ginecologista, mas também pela escola e, principalmente, pelos pais - terão uma iniciação sexual mais segura. Cabe aos pais mostrar às adolescentes a importância de cada fase da vida no seu tempo. A ginecologista é apenas uma coadjuvante, que tentará ao máximo ajudar a família, sempre respeitando os desejos da sua paciente e o sigilo médico.

UOL Estilo Comportamento - Qual o impacto da educação sexual correta na adolescência na vida adulta da mulher?
Barbara - Mulheres que foram adolescentes que conheciam seu próprio corpo, que tinham acesso a informação de qualidade e canal aberto na família, em geral, terão uma vida sexual mais saudável no futuro. Meninas que iniciam a vida sexual muito precocemente, sem informação sobre anticoncepção nem conhecimento do seu corpo, tendem a apresentar, muito cedo, dificuldades sexuais que podem acompanhá-las por muito tempo. Sem contar uma gravidez indesejada, um aborto clandestino, doenças sexualmente transmissíveis e até mesmo o HIV.

UOL Estilo Comportamento - Dê um conselho aos pais.
Barbara - O diálogo ainda é o melhor caminho. A velocidade com que as informações chegam até nós, hoje, é muito grande. Porém, é preciso filtrá-las. Os pais devem achar um caminho para realizar esse filtro para os filhos. É preciso encontrar a linguagem deles para tentar se comunicar e aproveitar situações do dia a dia para introduzir assuntos considerados tabus. Assim, cada dia mais esses tabus serão quebrados. Os adolescentes não decidem fazer sexo porque se fala de sexo em casa ou porque vão ao ginecologista. Decidem porque faz parte da vida. Com o diálogo, podemos mostrar quais são os nossos valores, os valores de cada família, e dizer que gostaríamos que esses valores fossem seguidos. Mas, ao final, caberá à adolescente a escolha.

 



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