"Fazer sacrifícios pelo outro tem um preço", diz autora do livro "A Metade Ideal"

Andrezza Czech
Do UOL, em São Paulo

Ela já teve um namorado que tinha medo de baratas, concorda com a ideia de que uma mulher não resiste a um homem carente e acha deplorável o estereótipo que mostra a mulher como consumidora compulsiva, que pede o cartão de crédito do marido para gastar. Entre memórias da infância, relatos e confidências sobre sua família e relacionamentos, Judith Brito parece conversar e propor uma reflexão com um amigo nos textos de “A Metade Ideal – Crônicas sobre os Altos e Baixos do Amor” (Sá Editora). Depois dos livros “Mãe é Mãe” e “Ah! O Amor” (Publifolha), Judith reúne em sua nova publicação 57 crônicas curtas, ágeis, bem humoradas e reflexivas que produziu para o site Metade Ideal. O UOL Comportamento conversou com a autora sobre relacionamento, amor e os desejos de uma mulher, temas principais do livro que é lançado nessa quarta-feira (9), em São Paulo.

UOL Comportamento: Em seu livro, você critica a banalização dos dizeres “eu te amo”. Acredita que amar de verdade seja algo raro?
Judith Brito: Não digo que é raro, mas muitas vezes a verbalização é descolada dos conteúdos mais “nobres” da expressão. Amar não deveria ser apenas uma declaração da boca para fora, e sim carregar significados como o respeito ao outro, o compromisso de cumprir o que foi combinado, a capacidade de se colocar no lugar do parceiro e de querer seu bem. O que destaco com a questão da banalização é que a arte de amar algumas vezes é confundida só com a reles declaração. Amar é bem mais que isso.

UOL Comportamento: Você condena as relações “simbióticas” em seu texto. Acha que o segredo para um relacionamento duradouro é a individualidade?
Judith: Não condeno as relações simbióticas, apenas acho que é difícil que sejam saudáveis, especialmente nos dias de hoje. Já não somos mais “condenados” a viver no casamento “até que a morte nos separe”, e as mulheres são cada vez mais independentes do ponto de vista financeiro. Então, parece que o mais razoável para duas pessoas é encontrar formas de partilhar individualidades, tentando não abrir mão de hábitos e preferências particulares. Fazer sacrifícios pelo outro ou abdicar de carreiras tem um preço e, a longo prazo, a conta não fecha, a menos que ocorra uma negociação prévia.

UOL Comportamento: Acredita mesmo que as mulheres se sentem mais atraídas por homens carentes?
Judith: Algumas mulheres –e eu mesma já me peguei fazendo isso– têm a propensão a cuidar, proteger emocionalmente e querer “melhorar” o homem. Então, nesse mundo em que o homem não é mais “dono” da mulher, ele muitas vezes se vê em uma situação de fragilidade, e isso pode ser um fator de atração para as mulheres do tipo protetora.

UOL Comportamento: Em um relacionamento, o maior empecilho ao desejo do casal é a intimidade?
Judith: É sabido que o passar do tempo é um desafio para a manutenção da atração física. A paixão dura dois ou três anos, e é normal que o novo seja sempre mais misterioso e desejável do que o já conquistado. A intimidade que se estabelece com o tempo é ótima, mas pode contribuir para que deixe de existir o mistério e também o desejo. Então, uma pitada de privacidade pode ser uma ajuda para que o desejo permaneça.

UOL Comportamento: O livro conta que quando você engravidou pela segunda vez, questionou como conciliaria trabalho e família e se sentiu culpada por instantes. Acredita que o peso da culpa é um problema feminino, já que é comum que as mulheres se sintam mal por não conseguir dedicar o tempo necessário aos filhos, ao marido e ao trabalho? Como driblar essa sensação?
Judith: Antes a divisão de tarefas era simples: o sustento cabia ao homem, cuidar da casa e dos filhos cabia à mulher. Hoje, homens e mulheres têm o desafio de administrar o tempo e têm agendas sempre cheias: em geral ambos querem crescer na carreira e muitos também querem ter filhos -sem contar a academia, os encontros com os amigos, etc. Nessa medida, ambos sentem culpa pelo tanto que deixam de fazer, já que o tempo é finito. Mas a mulher carrega um piano maior, visto que a gravidez e a dedicação aos filhos recém-nascidos são atribuições não delegáveis. Então, é inevitável que a mulher ache que está perdendo pontos no trabalho e também falhando na atenção aos filhos. O que ameniza é entender que isso acontece e saber planejar bem essas fases de travessia, com suporte da família e da equipe profissional.

UOL Comportamento: Aproveitando o título de uma de suas crônicas, o que quer uma mulher hoje? 
Judith: A mulher quer tudo e mais um pouco, o que não é fácil. Mas acho que as mulheres vivem um tempo especial, de mudanças profundas nos costumes, o que tem permitido que elas lutem pelo que querem e, principalmente, recusem os papéis que não lhes interessem. Minhas avós não tinham escolha: não havia como cogitar fazer algo diferente do casamento, dever “obediência” ao marido e ter muitos filhos. Acho sensacional que a mulher possa escolher se quer casar (ou não) e ter filhos (ou não). Conheço várias que decidiram não ter filhos, e nem por isso são consideradas monstros. Ao contrário, são profissionais competentes. Isso garante felicidade? Não. Mas ao menos permite que as mulheres busquem a satisfação de forma mais aberta e variada nos diferentes momentos de sua vida.


“A Metade Ideal"
Sá Editora
Páginas: 189
Preço: R$ 17 (versão digital) e R$ 35 (impresso)

 



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