"Não atirei o pau no gato"? Especialistas criticam brincadeiras politicamente corretas para crianças

Cléo Francisco
Do UOL, em São Paulo

Há algumas décadas, "Atirei o Pau no Gato" figurava entre as músicas preferidas das crianças. Mas os tempos mudaram e a consciência em relação à violência expressa pela canção acabou exigindo uma nova letra: "não atirei o pau no gato, porque isso não se faz. O gatinho é bonzinho e devemos proteger os animais".

A preocupação em estender o universo do politicamente correto às brincadeiras infantis tem sido criticada pelos especialistas. Para a terapeuta infantil e psicopedagoga Denise Dias, autora do livro "Tapa na Bunda" (Editora Matrix), o cuidado com relação ao repertório de músicas que as crianças ouvem deveria ser outro. "Uma coisa é cantar  'Atirei o Pau no Gato', que tem a ver com o nosso folclore. Outra é cantar e dançar o 'rebolation'", afirma.

Correto x incorreto
Atualmente, há duas correntes opostas sobre o que é adequado quando se trata de brincadeiras infantis, segundo a psicóloga e psicopedagoga Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira, coordenadora do curso de pós-graduação em psicopedagogia da Fig-Unimesp (Faculdade Integrada de Guarulhos-Centro Universitário Metropolitano de São Paulo). "Há uma linha de pensamento que defende o 'brincar politicamente correto', com brinquedos certinhos, perfeitos, que farão da criança um cidadão de acordo com padrões estabelecidos pela sociedade", afirma. "Já a outra linha defende que se a criança tiver acesso somente àquilo considerado perfeito pela sociedade, não terá liberdade para ser ela mesma".

Para Sirlândia, o momento de ser politicamente correto é aquele em que é necessário preservar a criança para que ela não tenha acesso a falsas informações. "Mas não dá para colorir o mundo. O incorreto pode ser mostrado para que elas aprendam a diferença entre certo e errado", afirma.

Intervenção na literatura
A adaptação de histórias famosas para aquilo que é considerado politicamente correto também levanta questionamentos. "No conto dos Irmãos Grimm, quando Cinderela entra na igreja para casar com o príncipe, as irmãs malvadas são atacadas por corvos que lhes arrancam os olhos", diz a pesquisadora de contos infantis Susana Ramos Ventura. "Isso já foi extirpado das versões contemporâneas. As pessoas consideraram politicamente incorreto, pois a punição é considerada demasiadamente violenta". 

Para Susana, é preciso ter cuidado ao selecionar os livros que os filhos irão ler, mas o critério deve ser sempre o de priorizar a boa literatura. Se houver algo de politicamente incorreto na história, os pais devem explicar aos filhos. "Vou impedir que meu filho tenha o prazer de ler 'Caçadas de Pedrinho', de Monteiro Lobato, porque o menino caça uma onça? De ler 'Histórias de Tia Nastácia' porque Emília chama Nastácia de 'negra beiçuda'?", diz Susana. "É preciso explicar que naquela época não havia noção de ecologia, nem tampouco racismo era crime. Não se deve jogar toda a literatura no lixo".

A psicopedagoga Denise Dias também questiona as versões de contos de fadas adaptadas para que os finais não sejam mais tão trágicos. "Os pais que apenas compram contos de fadas cem por cento felizes cometem um erro", diz. "A vida não é perfeita e há pessoas do mal no mundo real. A criança precisa lidar com isso".

Brincadeiras politicamente incorretas
Entre as brincadeiras de rua de décadas atrás, havia uma chamada "balança caixão", na qual um grupo de crianças fazia uma fila indiana, com todos inclinados e com as mãos na cintura do colega da frente. Depois de dizer as frases "balança caixão, balança você, dá um tapa na bunda e vai se esconder", todos corriam atrás de esconderijos, deixando ao último que sobrasse a tarefa de encontrar os colegas. "Hoje seria incorreto. Um tapa pode ser considerado 'bullying'", diz a psicopedagoga Sirlândia Teixeira. "Além disso, as crianças estão mais maduras. Antigamente, não havia conotação sexual. Hoje, pode ter". 

Para os especialistas, as brincadeiras na infância dificilmente irão influenciar a personalidade e o caráter da pessoa. "Não é porque uma criança brinca de polícia e ladrão que vai virar policial ou ladrão. Brincar de espada não vai transformá-la em assassino", diz Denise Dias. "As famílias estão perdendo a naturalidade da brincadeira e criando dramas".



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