Como na novela, amor de jovem por mulher mais velha ainda é visto com desconfiança

Andrezza Czech
Do UOL, em São Paulo

Com muitas moças a seus pés, homens jovens e bonitos como Adauto (Juliano Cazarré), de "Avenida Brasil", sofrem com a desconfiança da sociedade ao decidirem se relacionar com mulheres mais velhas. E o problema é ainda maior quando elas têm uma situação financeira melhor do que a deles, como Muricy (Eliane Giardini). A diferença de idade entre o casal da novela revelou o preconceito dos moradores do bairro do Divino, onde se passa a trama, e da família de Muricy. Na ficção, o problema é abordado com humor; na vida real, a situação não costuma ser divertida.

Ainda hoje, a grande diferença de idade entre os parceiros é vista com preconceito, principalmente quando as mulheres são as mais velhas da relação. "O comportamento e o discurso da sociedade mudaram, mas os valores ainda resistem", diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autora de "Toda Mulher É Meio Leila Diniz" (Editora BestBolso), que fala sobre a libertação sexual e emancipação feminina.

Mirian estuda casais formados por parceiros da mesma idade e os compostos por homens pelo menos dez anos mais jovens do que as suas companheiras. Ela afirma que rapazes que se relacionam com mulheres maduras têm mais admiração por suas parceiras do que os demais. "Eles são muito apaixonados. Poderiam ter a mais jovem, mas preferem a mais velha, mesmo sabendo que é uma relação estigmatizada, que envolve problemas com a sociedade, a família e os filhos dela --que se incomodam por ter a mesma idade do namorado da mãe", diz. 

  • Divulgação/Globo

    “Quanto mais mulheres se libertarem, menos preconceito haverá”, diz antropóloga

Para o psicólogo Paulo Geraldo Tessarioli, muitas mulheres descobrem o sexo na faixa dos 40 ou 50 anos, pois se casaram cedo e pouco experientes. Depois que se separam, encontram um homem mais novo para viver o que perderam. E são as separadas, como Muricy, que sofrem ainda mais com a discriminação. "Ainda espera-se que uma divorciada cuide só dos filhos, não tenha vida sexual ativa", diz a psicanalista e escritora Luciana Saddi, membro da SBP-SP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

Por que ainda há preconceito?
Segundo Mirian Goldenberg, ainda há mais mulheres jovens se relacionando com homens mais velhos do que o contrário. E, quando uma mulher mais velha se envolve com um jovem, é comum que pessoas digam que o rapaz se aproximou apenas por interesse, como acontece em "Avenida Brasil".

“É óbvio que, se você tem 25 anos e se casa com uma mulher de 40, ela, provavelmente, estará melhor estabelecida financeiramente do que você. Mas já estudei vários casos em que eles superaram as parceiras depois de alguns anos e continuam juntos e felizes", diz Mirian.

Para Luciana Saddi, a mulher ainda é tratada como objeto, e não como uma parceira para o homem. Sob essa lógica, seria compreensível que uma moça jovem fosse considerada mais atraente. "O que agrava o preconceito é a idealização do amor, somada à visão machista e patriarcal que a sociedade ainda tem", afirma.

Paulo Tessarioli afirma que a discriminação é alimentada pela menor possibilidade do nascimento de filhos quando a mulher tem idade mais avançada. "A função reprodutiva na nossa sociedade é muito forte. É mentira que ninguém mais pensa em ter filhos”, diz ele. “O meio social quer que a gente ache que a diferença de idade é importante, mas não é”.

  • TV Globo/Alex Carvalho

    Ex-marido de Muricy, Leleco (Marcos Caruso) é quem mais questiona os interesses de Adauto

Tabus femininos

Com o avanço da idade, muitas mulheres passam a ter dificuldade de aceitar que um homem sinta interesse por elas ou acreditam que eles procuram uma figura materna, segundo Mirian Goldenberg. "Elas têm insegurança de serem trocadas por uma mais jovem. Quando um homem de 35 anos demonstra interesse, ela não crê, pois se considera velha e sem atrativos".

Pesquisadora de relacionamentos há mais de 20 anos, Mirian diz que não encontra mulheres libertárias em relação ao sexo hoje em dia. “Leila Diniz fazia sexo com quem queria, do jeito que queria. Hoje, até mesmo as jovens não assumem que transaram com mais de três caras, pois acham que pode pegar mal”, afirma a antropóloga. Segundo suas pesquisas, as mulheres que quebram tabus têm relações muito mais saudáveis do que as que se aprisionam. "Quanto mais mulheres se assumirem e se libertarem, menos preconceito haverá".

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