Férias escolares não precisam ser uma tortura para pais nem entediante para os filhos

Heloísa Noronha
Do UOL, em São Paulo

Há cerca de três gerações, a participação feminina no mercado de trabalho não era tão maciça. As mulheres ficavam mais tempo em casa, o que permitia que as férias escolares transcorressem sem atropelos, mesmo sem nenhuma viagem na programação. Havia, ainda, mais segurança para deixar as crianças se divertirem na rua. Hoje, com pai e mãe trabalhando, é difícil lidar com mais de dois meses sem aulas por ano, ainda mais quando os pais não conseguem conciliar as duas agendas profissionais. Onde deixar as crianças? Há programação extra na escola? Ela é suficiente para entretê-los? Será que a avó, que já quebrou tantos galhos, vai reclamar dessa vez?

Dicas importantes 

- Férias não são indicadas para o início de cursos, mesmo que eles facilitam a rotina dos pais. É tempo de divertimento. Sobrecarregar uma criança nessa fase prejudica o aprendizado no retorno à escola. 

- Nas férias, seja mais flexível, em especial com tarefas e horários de acordar e dormir. 

- É um erro achar que duas crianças vão se dar bem só por terem a mesma idade ou serem do mesmo sexo. Pense nisso antes de combinar de deixar a criança na casa de um amigo que tem filhos, pois falta de empatia ou brigas podem acontecer. 


- Respeite o temperamento de seu filho antes de inscrevê-lo em determinadas atividades de férias.  Uma criança introvertida ou enjoada para comer pode ter problemas em um acampamento, assim como quem prefere brincadeiras mais calmas vai penar em um campeonato de futebol ou de dança. 

- Os pais devem deixar todos os seus números de telefone –e os de alguém próximo– com os cuidadores e com os filhos. Crianças de cinco anos são capazes de fazer um telefonema e até de mandar SMS.


O estilo de vida dos casais mudou e o recesso escolar se transformou em um grande problema. UOL Comportamento conversou com especialistas e ouviu várias mães –afinal, boa parte das decisões ou perrengues que envolvem os filhos costumam ser da alçada feminina, pois elas ainda são as mais envolvidas nessas tarefas– para propor algumas soluções pertinentes, principalmente para quem vive nas grandes cidades.

Antes de adotar qualquer medida, porém, a psicóloga Denise Pará Diniz, coordenadora do setor de gerenciamento de estresse e qualidade de vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que é fundamental partilhar os planos com as crianças, para que elas também possam planejar as próprias férias.

"O ideal é encontrar uma alternativa que satisfaça todo mundo, não só os pais. A criança também deve ficar feliz, assim como a rotina de um possível cuidador não deve sofrer maiores contratempos", afirma.

A psicóloga diz, ainda, que, seja qual for a solução, também é importante deixar claro para os filhos que os pais gostariam de estar por perto, mas que precisam trabalhar para proporcionar-lhes mais conforto e porque sua carreira lhe traz satisfação.

"Aproveite esse momento para estimular a autonomia deles. Telefone durante o dia para saber como vão as coisas, mas não de maneira obsessiva, e, sobretudo, não se culpe. Tente compensar com qualidade de tempo ou com um passeio especial no fim de semana", declara Denise.

Boas soluções para pais muito ocupados

Pedir socorro aos parentes próximos que têm disponibilidade é sempre uma boa opção, para a psicóloga Suzy Camacho. "Além de os pais ficarem tranquilos, porque confiam nas pessoas, é uma chance de as crianças estreitarem laços familiares". Mas certifique-se de que os parentes estão realmente dispostos a ficar com a criança;
Se há parentes que moram em outra cidade, em especial numa casa com crianças mais ou menos da mesma idade, mandar os filhos passarem uns dias com eles pode ser uma experiência enriquecedora. Eles terão a chance de sair da rotina e conhecer coisas novas --seja outra cidade, um bairro novo, a rotina da outra casa;
Caso não seja possível levar a criança para a casa de parentes com crianças, convide-os para passar uma temporada com vocês. Embora haja uma certa alteração na rotina da família, seu filho estará na companhia de gente querida e se divertindo;
De acordo com Suzy Camacho, autora do livro "Guia Prático dos Pais" (Ed. Paulinas), as brasileiras aos poucos começam a adotar um esquema que é sucesso entre as francesas: o rodízio de mães. Numa semana, as que não trabalham fora ou têm maior flexibilidade de horário cuidam dos filhos das ocupadas que, na semana seguinte, adaptam a rotina para retribuir o favor;
Algumas escolas, principalmente as particulares, incorporaram ao calendário escolar uma programação especial de férias, e não costumam fechar suas portas durante o mês de julho –somente durante as festas de fim de ano. Embora seja um custo extra, nem sempre barato, é uma alternativa segura para quem não tem outra opção;
"Se a escola não contar com recreação de férias, pergunte na secretaria se alguma funcionária teria interesse em cuidar de seu filho", diz a pediatra Renata Waksman, presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. É uma forma confiável de contratar uma babá temporária, que dispensa uma fase de adaptação muito complexa, já que a criança provavelmente a conhece;
Acampamentos podem se transformar em lembranças de férias inesquecíveis, desde que a criança tenha mais de cinco anos, idade em que já se comunica bem e tem uma certa autonomia;
Condomínios grandes, em geral, oferecem boa infra-estrutura de lazer que é potencializada com atividades de férias. Bem supervisionadas e organizadas, são uma excelente ideia. Se o seu condomínio não tem, proponha aos vizinhos;
Contratar uma babá temporária é uma ideia que funciona desde que os pais tomem certos cuidados. O primeiro, óbvio, é pedir referências. Sentir afinidade com a pessoa é importante, assim como pedir que ela comece a trabalhar antes de as férias começaram, para que seu filho vá se acostumando. Mesmo no caso de crianças maiores, colocar uma pessoa estranha para tomar conta delas de uma hora para outra pode surtir efeitos desagradáveis. "Os pais devem instruí-la a promover atividades e brincadeiras, em vez de apelar  para a TV", fala a pediatra Renata Waksman.
Negociar com o chefe também é uma boa. Em vez de acumular folgas para estender o período de férias, tente tirá-las agora. “Nem precisa ser de uma vez. Imagine tirar duas sextas-feiras. O fim de semana prolongado permite viagens curtas e um tempo a mais com os filhos", diz a psicóloga Suzy Camacho. Outras sugestões são trabalhar no esquema home office ou levar a criança para o escritório, uma vez por semana. Nesse caso, sempre com um kit –lápis de cor, caderno, revistinhas, joguinhos eletrônicos– para entretê-la. Se pai e mãe conseguirem esses combinados, mesmo que em momentos alternados, as crianças vão se distrair.
Se os pais são separados e não conseguem dividir as férias –um fica com a criança nas de verão o outro nas de inverno– o ideal é assumirem juntos a responsabilidade de decidir como vão lidar com as demandas, caso estejam trabalhando. É momento de deixar as prováveis diferenças de lado e pensar, a dois, no bem-estar do filho, de preferência com uma certa antecedência para evitar atritos desnecessários.

 



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