Casamento pode revelar defeitos que parceiros não percebiam um no outro durante o namoro

Simone Cunha
Do UOL, em São Paulo

Transformar uma pessoa carinhosa, por quem nos apaixonamos, em marido ou mulher continua sendo o caminho mais natural para muita gente. No entanto, dividir o mesmo teto não significa romance eterno. Pior: em alguns casos, o parceiro acaba mostrando um lado nada atraente, o que desperta a questão: "Foi com essa pessoa que eu me casei?". 

Há uma explicação para tamanha transformação: a atração inicial acontece, principalmente, inconscientemente. "Durante o namoro, em especial em seu início, existe a tendência em mostrarmos o que temos de melhor. Ou seja, agimos de maneira que, no nosso entendimento, o outro gostaria que agíssemos", explica a psicóloga Juliana Morillo, especialista em terapia familiar e de casal pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica). 

Para a psicóloga Marcella Almeida, da Clínica de Especialidades Integrada, muitas razões podem nos impedir de notar as verdadeiras características de um parceiro. "A mais comum é a necessidade de, durante o relacionamento, só enxergarmos aquilo que se deseja e criar uma fantasia ideal do ser amado, baseado no amor romântico", diz. Por isso, ela afirma que a fase do namoro é fundamental para que um conheça bem o outro, as família e suas histórias. “Quando você percebe na pessoa amada algo divino, mesmo que os amigos e os parentes não vejam o mesmo, é uma boa dica para avaliar se estamos ou não fantasiando”, diz. 

Além disso, ao iniciar um romance, buscamos características no outro que, por razões pessoais, são desejáveis e importantes existir. “É natural começar uma relação com a visão ofuscada pela empolgação de estar com alguém que nos atrai”, diz Juliana. Portanto, não se pode afirmar que uma pessoa omite más qualidades, afinal, o outro também não as quer enxergar. “Os defeitos e as virtudes já estavam ali, só não foram avaliados por quem idealizou algo diferente ou alimentou a crença de que alguma característica poderia ser mudada”, afirma a psicóloga Triana Portal.

O perfil real de uma pessoa só é realmente descoberto quando o casal passa por uma situação de estresse, segundo o psicólogo Maurício Pinto. “Com o tempo e de acordo com as circunstâncias, as pessoas podem mudar para melhor ou para pior, e é fundamental estar preparado para isso”, diz. Convivência significa intimidade, o que faz com que você mostre quem realmente é. Com qualidades, aquelas que fizeram o outro se apaixonar, mas com defeitos também, não tão apaixonantes assim.

 

A rotina ajuda a enxergar o outro com uma visão menos embaçada. Com o passar do tempo, não dá para sustentar papéis (lembrando que, normalmente, eles são interpretados inconscientemente) que não fazem parte de um comportamento natural. “Se passamos a agir de forma diferente, o outro também passa a reagir de outra maneira, e vice-versa”, explica Juliana. 

Tais conflitos precisam ser conversados, negociados e solucionados para que o casamento se mantenha saudável. Juliana diz que, dependendo de como foi o namoro, a negociação pode não ter sido necessária e os parceiros não aprenderam a solucionar diferenças. Com isso, as emoções geradas pelo conflito facilitam reações mais impulsivas, provocando o "efeito surpresa" --quando alguém revela ou percebe uma faceta até então oculta. 

Mas ao descobrir os defeitos que não conhecíamos até o casamento, como agir? “É fundamental colocar na balança não apenas as coisas ruins, mas as virtudes. O casamento pode ter salvação por meio de mobilização mútua em um objetivo comum”, explica Triana. 

Para Maurício Pinto, algumas perguntas básicas devem ser feitas, como: ainda gosto dessa pessoa? Tenho admiração? Vale a pena? “Uma terapia de casais pode ajudar neste processo, onde os pontos negativos podem ser abordados de forma protegida e segura na busca de um relacionamento saudável”, afirma. 

Mas não adianta apenas um estar disposto, ambos devem estar em sintonia. “Todos são passíveis de mudanças, mas é preciso disponibilidade para isso, querer fazer dar certo. Se esta vontade existir, um grande caminho foi percorrido e a chance da mudança real acontecer é grande”, diz Marcella. Porém, se o relacionamento estiver comprometido e o parceiro não transmitir mais confiança, a separação é o melhor caminho. “Se não há mais sintonia e a relação tira mais do que acrescenta, não vale insistir”, afirma Maurício.

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