Bancados pelos pais, "eternos estudantes" caem na armadilha de adiar a vida profissional

Maurício Horta
Do UOL, em São Paulo

Bruno Diniz acaba de esvaziar seu flat nos Jardins, bairro nobre paulistano, para se mudar para Campina Grande, na Paraíba. E seus olhos brilham não por voltar à terra-natal, mas por estar a dias de começar seu primeiro emprego. Aos 30 anos, Bruno enfim abandonará o grupo dos eternos estudantes --jovens que mergulham em diversas especializações, cursos de idiomas e graduações, e deixam para mais tarde, bem mais tarde-- a entrada no mercado de trabalho. 

Na última década, esse grupo tem aumentado consideravelmente, segundo Daniela do Lago, professora em cursos de MBA da FGV e colunista de UOL Empregos. Por que? "Vejo aí uma superproteção de pais", diz Daniela. "São pessoas que ralaram muito para alcançar o sucesso e agora pensam: 'vou dar toda a base para meu filho, que vai entrar fera sem ter que passar pelas mesmas dificuldades'. Mas muitos pais têm passado do ponto".  

Carmem Rittner, professora de psicologia da PUC-SP, concorda. "Por ter uma estabilidade financeira garantida pelos pais, o eterno estudante vive numa zona de conforto. Isso permite que passeie pelo conhecimento sem assumir nenhuma área como sua", diz. É o caso de Bruno, filho de professores de medicina. "Claro que meus pais sempre tiveram preocupação em saber se eu me sentia realizado, mas nunca me pressionaram a atingir a independência financeira." 

Sempre em preparo
No último ano do ensino médio, em 1999, Bruno fez um ano de intercâmbio cultural nos Estados Unidos. De volta, sentiu-se enferrujado para encarar o vestibular. Então, seus pais lhe bancaram um ano de cursinho. Quando foi aprovado, mudou-se para Brasília, onde passou cinco anos estudando Relações Internacionais. Nessa época, trabalhou em meio período em um gabinete parlamentar, mas o que o mantia era a ajuda dos pais. Tudo mudaria depois da formatura. Mas, na hora de encarar o mercado de trabalho, Bruno novamente não se sentia preparado. "Como o curso de Relações Internacionais é muito abrangente, tive apenas uma vaga ideia do que podia fazer. Eram tantos caminhos que parecia que eu ainda não tinha uma profissão", diz. 

Os especialistas ouvidos por UOL Comportamento são unânimes: essa insegurança é normal, mesmo em carreiras menos abrangentes. Em alguns casos, o estudante realmente está despreparado. "Muitos jovens estendem a adolescência. Formam-se sem ter se dedicado na graduação e, depois, não conseguem entrar no mercado de trabalho. Esperam então tirar o atraso com um MBA", afirma José Augusto Minarelli, presidente da consultoria Lens & Minarelli, especializada em aconselhamento de carreira e "outplacement" (demissão humanizada).

Mas os melhores estudantes também enfrentam essa insegurança. Isso porque se espelham em modelos irreais. "Pegue uma revista de negócios. A impressão que se tem é a de que, para entrar no mercado de trabalho, as pessoas precisam falar quatro idiomas, ser socialmente desenvoltas e ter experiência no exterior. Isso é ilusório", diz Carmem Rittner. E o espelho de Bruno foram os próprios pais. "Meu pai dá aula na Universidade Federal de Campina Grande. Minha mãe é coordenadora do curso de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande. É difícil viver sob a sombra de pais com carreira tão consolidada", diz.

Início frustrante

  • Leonardo Soares/UOL

    Aos 30 anos, Bruno Diniz se prepara para iniciar a vida profissional, depois de muitos estudos

Ao se sentir intimidado pelo mercado, o jovem que tiver meios busca fortalecer-se nos estudos. E deixa o trabalho para adiante. Foi o que Bruno fez ao vir para São Paulo, onde passou dois anos cursando especializações --uma em comércio exterior e outra em direito dos contratos. Adiantou? Não. Por um ano, trabalhou em meio período em um escritório de advocacia. Foi quando encontrou a segunda armadilha do eterno estudante: a diferença entre expectativa e realidade no emprego. 

"Entrei pela porta dos fundos", diz Bruno. "Não fui bem apadrinhado. Como sempre me concentrei na formação acadêmica, não conhecia os meandros corporativos. No escritório não encontrei as oportunidades que eu queria, e a falta de perspectiva de crescer gerou uma nítida frustração." 

Para Carmem Rittner, a culpa pela frustração no início de carreira não é apenas dos pais. "Quem começa precisa ser visto pela empresa como um jovem talento, e não como um tirador de xerox", diz. "É necessário discutir mais a carreira com o jovem para ele entender que as vivências que ele terá no início podem até ser medíocres, mas que os primeiros momentos profissionais são de aprendizado, e não de grandes realizações."

Querendo entrar pela porta da frente, Bruno trocou novamente de rumo, e dedicou mais três anos a se preparar para o concurso público para carreira diplomática, sem sucesso. E ainda mantido pelos pais. 

O lado bom dos problemas 
Bete Adami fez duas graduações --filosofia na USP e administração na FGV. Na primeira, entrou em 1971 e só se formou em 1979. "Entrei com 49 colegas e acabei colando grau sozinha. Na época, não havia essa coisa de jubilamento por tempo", conta durante um intervalo de aula. Aula? Sim, mas como professora. Hoje, Bete é coordenadora do curso de administração da PUC-SP, no campus Ipiranga. "Sou o tipo de professora com quem os alunos gostam de conversar. Eles perguntam como sei essas coisas, de onde tiro aquelas conexões. E o que ajudou foram os anos estudando filosofia", diz. 

Para Bete, o eterno estudante não é necessariamente um problema. "De fato, há aqueles que ficam juntando um monte de coisas no mesmo baú e não conseguem fazer nada com isso. Começam e param. Mas esses são uma minoria", diz. Há também os que continuam estudando para ampliar seus conhecimentos. "E é esse grupo que eu vejo crescer hoje. Eles se espelham em exemplos, e a partir deles buscam mais caminhos paralelamente. Se um recrutador vir seus currículos, pode achar que são indecisos. Mas, se ele for mais antenado, vai concluir que esses estudantes têm conhecimentos em várias áreas que podem ser úteis para a empresa".

E é assim como Bruno se vê agora. Há poucos meses, recebeu um telefonema de Campina Grande: a Universidade Estadual da Paraíba queria que ele fosse o consultor de projetos estratégicos em sua secretaria de relações institucionais e internacionais. Era a vaga dos sonhos, pois reuniria todas as áreas que já estudou. "Hoje, me sinto muito confortável com a profissão e com os conhecimentos que acumulei, ainda que de forma acidental. Mais cedo ou mais tarde a oportunidade que te satisfaz acaba aparecendo. Ou você acaba criando uma", diz. "Sempre há um bom lugar para quem se preparou".

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