Síndrome do pequeno poder é consequência de chefe omisso

Andrezza Czech
Do UOL, em São Paulo

  • Thinkstock

    Pouca inteligência emocional e vontade de ter mais autoridade podem levar à síndrome do pequeno poder

    Pouca inteligência emocional e vontade de ter mais autoridade podem levar à síndrome do pequeno poder

Até ontem, ele era apenas um colega de trabalho. Mas bastou receber uma pequena promoção para que o poder lhe subisse à cabeça. Mesmo não sendo seu chefe, ele passa a lhe pedir tarefas que não são de sua obrigação, começa a te tratar com arrogância e não perde uma oportunidade de vangloriar-se de seu novo status. Esse comportamento é conhecido como a "síndrome do pequeno poder".

"Isso acontece com alguém que perde a razão e passa a agir como um imperador, ultrapassando os limites da autoridade", diz a professora Janaina Ferreira, especialista em gestão de equipes e pessoas do Ibmec do Rio de Janeiro. 

E esse poder nem sempre é real. É o caso do funcionário que está no cargo hierárquico mais baixo da empresa, mas abusa de estagiários ou colegas recém-contratados. "É um desvio de comportamento. A pessoa não tem poder nenhum, mas ao fantasiar ter, age como se tivesse e acaba puxando o próprio tapete, pois mostra que é inadequada para ocupar um cargo de liderança", diz Janaina.

Quando a síndrome do pequeno poder toma conta de alguns funcionários, é sinal de que falta um chefe que encare o problema. "O líder que não gosta de tomar decisões ou de delegar tarefas adora que alguém assuma suas funções. Quando ele se omite, aquele que gosta de poder assume suas atribuições e um terceiro fica oprimido", afirma Janaina. "Isso causa conflitos e deteriora relacionamentos interpessoais", diz.

Quem sofre da síndrome

O tipo de funcionário que está sujeito a sofrer da síndrome do pequeno poder é aquele com baixa inteligência emocional, pouco autoconhecimento e que está insatisfeito com a posição que ocupa. "Se o que ele deseja não lhe é concedido por meio de uma promoção, ele faz sua fantasia de autoridade virar real ao oprimir alguém", explica Janaina.

Segundo a professora Renata Maglioca, do Progep (Programa de Estudos em Gestão de Pessoas) da FIA (Fundação Instituto da Administração), há pessoas que têm como grande propósito profissional ter status e usar o trabalho como forma de vivenciar o poder.


"Por ter tanta ânsia por comandar, quando consegue, não sabe fazê-lo de maneira madura e segura", diz Renata. A exposição e as cobranças que vêm junto com a autoridade podem perturbar o recém-promovido, que tenta camuflar o problema fazendo com que os outros também se sintam inseguros.

A prepotência também pode ser consequência da influência de referências ultrapassadas sobre hierarquia: aquela em que o chefe é a pessoa que não pode ser questionada e sempre tem razão. "Hoje, o mercado de trabalho não espera esse tipo de liderança", afirma Renata.

Como lidar com colega assim?

Se o colega lhe pede para fazer determinada tarefa, vale ser cooperativo e ajudá-lo. Mas se a situação se repete com frequência e ele age com arrogância ao pedir auxílio, é preciso saber dizer que você não pode ajudá-lo em alguns momentos –mesmo que esteja com tempo sobrando. "Se ele não é seu chefe, não determina quando você deve fazer algo ou não", afirma Janaina. "Só existe um opressor se o oprimido permitir. Você não pode acatar ordens descabidas. Gentilezas todos fazemos, mas há limites", diz ela.

 

A princípio, Renata, do Progep, acredita que é necessário mostrar para o colega autoritário que você está do lado dele, sem se afastar. Se nada mudar, proponha uma conversa franca. Se ainda assim a questão não for resolvida, leve o problema ao superior ou RH. "Tem gente que diminui a autoestima do outro para poder crescer. E não dá para ficar passivo se a situação te incomoda ou é destrutiva para a equipe", diz ela.

Você sofre da síndrome?

Como são raras as empresas que preparam o funcionário para a promoção, ninguém está livre de ser acometido pela síndrome do pequeno poder. Para administrar bem uma posição de liderança, os especialistas recomendam buscar cursos de gestão.

Para Renata, a primeira coisa que se deve fazer ao conquistar um cargo mais alto é ter consciência de que há um risco de mais cobranças e que é normal sentir insegurança. "Se você tem essa clareza, terá tranquilidade de dizer ao outro que precisa de ajuda. Você não precisa saber tudo e deve reconhecer isso", afirma.

Para a psicóloga Ana Cristina Limongi-França, professora do departamento de administração da FEA-USP, diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho e coordenadora da FIA, entender a cultura da empresa, saber interagir com seus subordinados e ter diálogo com um chefe, para pedir orientações, são medidas fundamentais.
 

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