Três primeiros meses são os mais críticos, mas cuidados devem começar antes de engravidar

Simone Sayegh
Do UOL, em São Paulo

Os três primeiros meses da gestação são os mais delicados –já que a maior parte dos abortos espontâneos acontece nas 14 semanas iniciais–, mas o ideal é que os cuidados com a gravidez comecem antes mesmo de o teste de farmácia ou o exame de sangue acusar positivo.

De acordo com a médica Lilian de Paiva Rodrigues Hsu, chefe da disciplina de obstetrícia da Santa Casa de São Paulo, o melhor é que a primeira consulta médica aconteça antes de a mulher engravidar para que se possa identificar e corrigir eventuais problemas clínicos.

Nessa consulta, o obstetra irá solicitar exames de sangue para verificar se a mulher tem anticorpos contra doenças como rubéola e toxoplasmose, que podem causar aborto, parto prematuro e malformações no feto. Na lista de questões a serem investigadas pelo especialista também entram HIV, sífilis e hepatite B e C. Se a futura mamãe tem alguma doença crônica –como obesidade, diabetes e hipertensão– é feita uma análise de sua condição geral de saúde e dos cuidados específicos a serem adotados.

Infográfico mostra exames que a gestante deve fazer

  • Arte/UOL

Feita essa avaliação e estando tudo ok para a mulher engravidar, a primeira recomendação para uma gestação saudável passa pela suplementação com ácido fólico. “Essa substância é recomendada para todas as mulheres desde o período pré-concepcional, cerca de três meses antes da concepção, até os três primeiros meses após ela”, afirma Lilian.

Como a maioria dos casais não consegue se planejar da forma ideal, diversos países, entre os quais o Brasil, já adotaram a adição de ácido fólico às farinhas industrializadas. Segundo Daniel Rolnik, diretor do ambulatório de obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a suplementação nas doses recomendadas reduz em até 60% as taxas de defeitos do tubo neural do feto, como a anencefalia (ausência do crânio e do cérebro) e a espinha bífida (abertura da coluna com exposição da medula espinhal).

Confirmada a gravidez, é importante que a gestante inicie o acompanhamento pré-natal o mais cedo possível. “Nessa fase, o médico deve avaliar possíveis situações de risco para a mãe e o bebê, orientar sobre as mudanças decorrentes do estado gestacional, indicar hábitos de alimentação saudáveis e pedir outra bateria de exames”, declara Lilian.

É fundamental que a gestante tenha consciência de que fumar e ingerir bebida alcóolica constituem conduta de risco, principalmente no que diz respeito a malformações no bebê. “Não existem níveis seguros de consumo de álcool e de cigarro na gestação”, afirma Patrícia Rossi, membro da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo). Entre os problemas que o uso dessas substâncias pode causar estão: atraso no crescimento do embrião, parto prematuro, aborto e diminuição do tempo de amamentação.


Dieta saudável

Ter uma alimentação rica em legumes, frutas e verduras e comer a cada três horas devem ser cuidados observados ainda com mais rigor na gestação. E assim como há indicações do que comer, também há do que evitar, como alimentos gordurosos e condimentados, açúcar em exagero, carne crua, mal cozida ou de procedência duvidosa –com atenção especial no caso de frutos do mar–, chás e cafés. “A cafeína presente nessas bebidas aumenta o risco de o bebê nascer abaixo do peso”, diz a médica da Santa Casa.

Remédios

É nos três primeiros meses que as futuras mamães começam a se queixar de náuseas e os vômitos são mais comuns. Na maioria das vezes, esses sintomas são resultado de alterações hormonais normais da gravidez. Algumas mudanças de hábitos podem evitar o mal-estar, como ingerir alimentos frios ou gelados.

Há situações, por causa da intensidade dos sintomas, que o uso de medicamento se faz necessário. Segundo Daniel Rolnik, os antieméticos –usados para inibir o vômito– podem ser utilizados com bastante segurança nessa fase, apesar de a maioria dos remédios pertencer à categoria B (uso com cautela na gestação) pela classificação do Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador do governo dos Estados Unidos.

Rolnik aponta como alternativa antieméticos feitos à base de substâncias naturais, como vitamina B6 e gengibre, que são da categoria A (totalmente seguros na gravidez).  “No entanto, todo e qualquer medicamento na gestação só pode ser prescrito pelo médico obstetra, que conhece os riscos e os benefícios de sua utilização, bem como as peculiaridades clínicas da futura mãe.”

Vaidade

A gestante também deverá prestar atenção aos produtos que usa na sua rotina de cuidados de beleza. Tinturas de cabelo com amônia, produtos com formol para alisar os fios, cremes para pele com ácido retinoico e com ureia, entre outros, devem ser banidos. "Nos três primeiros meses da gestação é quando acontece o desenvolvimento dos órgãos fetais. Qualquer coisa perigosa é mais perigosa nessa fase”, afirma Patrícia Rossi.

A especialista, no entanto, diz que um produto é de uso primordial para a grávida: filtro solar, preferencialmente a partir do fator de proteção 30. “Os hormônios que atuam na gestação têm tendência a provocar manchas na pele.”


Sexo e atividade física

É mais comum do que se possa imaginar casais que evitam relações sexuais com penetração com medo de machucar o bebê. “Se a gravidez está correndo normalmente não há restrições para a atividade sexual. O bebê está bem protegido no útero” afirma a obstetra da Santa Casa. O sexo apenas será contraindicado pelo médico em casos de gestação de alto risco.

Já antes de praticar exercícios físicos, a futura mãe deve passar por uma avaliação de seu médico. É fundamental que a mulher respeite seus limites e pratique atividades às quais ela já estava acostumada, evitando esportes de contato, como basquete e handebol. “Dizemos que a gravidez não é o melhor momento para se começar uma atividade física nova”, declara Rolnik.

Segundo os especialistas, o exercício é benéfico quando realizado de forma regular e de maneira moderada, o que vai garantir uma boa oxigenação para a gestante e para o bebê. “As caminhadas são uma boa maneira de se manter em forma em vez de atividades de grande impacto, que podem causar lesões, já que na gravidez as articulações do corpo todo ficam mais flexíveis”, afirma Lilian. Por isso, correr na gravidez só para aquelas que já praticavam o exercício antes da gestação e sempre após a avaliação do obstetra e do cardiologista. Além da tradicional hidroginástica, a natação e algumas modalidades de dança são indicadas para gestantes.

Trimestre crítico

Impulso natural na maioria das grávidas, revelar a gestação antes que essa complete três meses implica em riscos. “Mundialmente, cerca de 20% dos casais passam por abortos espontâneos”, afirma Tsutomo Aoki, professor-adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Quase 80% dos abortos acontecem nas primeiras semanas de gestação. Soma-se a isso o fato de que é na 12ª semana que se realiza o primeiro exame de ultrassonografia morfológica da criança, cujo principal objetivo é avaliar o risco de o feto ser portador de doenças genéticas, dentre as quais a mais comum é a Síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21).

É claro que a escolha do momento de contar a boa-nova cabe ao casal, mas os especialistas aconselham esperar até a 14ª semana, a partir da qual o abortamento é mais raro. “Comunicar que a gravidez tão esperada foi interrompida intensifica sentimentos de luto e pode causar até problemas emocionais”, diz Lilian.

Segundo Rolnik, 60% dos abortos precoces têm como principal causa alterações genéticas do embrião incompatíveis com a vida e que podem acontecer com casais geneticamente saudáveis.

Ainda há abortamentos causados por alterações hormonais –como doenças na tireoide–, infecções, malformações do útero ou provocados por doenças maternas –como anemia e diabetes descontrolada–, fumo e uso de substâncias tóxicas. “Nem todos os abortos, mesmo quando não relacionados a alterações genéticas, podem ser evitados”, afirma Rolnik. Mas, de acordo com o especialista, é possível remover alguns fatores de risco orientando a paciente no acompanhamento pré-natal ou, idealmente, na consulta pré-concepcional.

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