Fragrância Déclaration Bois Bleu, da Cartier, é instantaneamente agradável

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Cartier Avaliação:

Eis um fenômeno interessante.

Flankers geralmente são perfumes que descendem de outras fragrâncias originais - fragrâncias que quase invariavelmente tiveram sucesso - fornecendo uma variação no tema e, portanto, ampliando a comercialização de uma marca. Muito como o sucesso de "Homem-Aranha 2" gerou o "Homem-Aranha 3", o perfume Princess, de Vera Wang, de 2004 - 2006, gerou o Vera Wang Flower Princess em 2008, e assim sucessivamente.




Consigo pensar em uma exceção notável à regra de que os flankers só nascem do sucesso: em 2002, Yves Saint Laurent, sob a direção criativa de Tom Ford e Chantal Roos, lançou um masculino através dos perfumistas Alberto Morillas e Jacques Cavallier, chamado M7 - para reforçar o status de sétimo perfume masculino da marca YSL. Foi um fiasco, talvez por ele não ter sido exatamente fácil de usar, já que trazia toques de borracha queimada, alcatrão, piche sobre o asfalto e pau-santo chamuscado. Era o equivalente olfativo a um filme dos irmãos Cohen.

Mas pelo fato de YSL ter investido maciçamente na criação da marca M7, Morillas e Cavallier lançaram o M7 Fresh em 2004. Foi um dos melhores masculinos da década passada, uma verdadeira atualização dos elementos principais do original, assim como uma profunda reformulação da imagem dos mesmos: o alcatrão e a fumaça se transformaram em uma fascinante demonstração de masculinidade - com um toque de óleo de máquina, como o ar frio de inverno que gruda naquele homem de casaco de couro que acabou de descer de sua Moto Guzzi. Seu fracasso - e desaparecimento - devem ser lamentados.

Apesar de toda a glória do M7 Fresh, os flankers são freqüentemente inferiores a seus originais. As marcas enxergam uma oportunidade para ganhar mais dinheiro; o preço da fórmula despenca para jogar os lucros para cima; os consumidores mais espertos dão as costas enquanto a massa mama deles como se fossem sundaes do McDonald's. Mas eventualmente surge um flanker que faz o mesmo que a Pixar fez com "Toy Story 2": se equiparar ao original, quiçá superá-lo.

A pergunta é: que tipo de flanker Jean-Claude Ellena - que criou o Déclaration para a Cartier em 1988 - fez? A Cartier teve bastante sucesso com o original. É um perfume fascinante. Minha lembrança de Déclaration é que ele se aproximava muito de um eau fraîche clássico, ou seja, uma fórmula padrão que combina notas cítricas e aromáticas ou herbais. Mas eu recentemente senti seu cheiro de novo e, na verdade, fiquei chocado com o grau de masculinidade francesa hardcore que ele carrega. Ele é obsceno ao canalizar a sensualidade do cheiro de axilas por lavar, e isto se dá simplesmente por conta de uma boa dose de cominho, que tem cheiro de suor. Ainda assim, ele também é elegante no modo como os franceses são elegantes: carregam um forte apelo sexual, levemente opressor, até mesmo narcisista; mas são sedutores, se você gostar daquilo.

Então, em 2001, Jean-Claude Ellena criou o flanker do Déclaration, Bois Bleu. Este não chega a ser proibido para menores de 18 anos, mas isso só quer dizer que o odor de corpo do cominho se foi (alguns vão sentir sua falta, mas certamente não é a maioria). Sua personalidade foi suavizada e perdeu um tanto de seu caráter francês. Como resultado, é mais agradável instantaneamente; você vai ficar feliz por ter um Bois Bleu sentado ao seu lado tanto em um jantar quanto no metrô (ele também vai vender bem na Ásia, estou prevendo). Assim como Morillas e Cavallier fizeram com o M7 Fresh, Jean-Claude Ellena utilizou os elementos fundamentais do original, limpou-os, extirpou as partes espinhosas, reimaginou e modernizou suas notas cítricas e deu um brilho ao todo, como um vidro recém-lavado. Muito agradável. Se tivéssemos mais flankers como este, eles seriam ansiados por todos nós.

Déclaration Bois Bleu
Cartier
www.cartier.com
 

Tradutor: Erika Brandão

UOL Cursos Online

Todos os cursos