Perfume orgânico Guaiac, de Red Flower, cheira ingenuidade

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Red Flower Avaliação:

A discussão acerca de perfumes orgânicos é vasta e pode ser dividida em duas partes. A primeira questão envolve arte. O perfume, como forma de arte, - e interesse comercial - é criado a partir de matérias-primas sintéticas, assim como a arquitetura (sim, há madeira e tijolo, mas o trabalho do arquiteto italiano Renzo Piano, por exemplo, é todo feito a partir de polímeros avançados e ligas de metal), pintura (a maioria dos pigmentos hoje em dia nasce nos laboratórios, e as cores artificiais, em todos os sentidos, são fundamentais para a pintura) e música (a manipulação eletrônica das vozes, etc).

O segundo argumento envolve política. A filosofia dos "100% orgânicos" não é um braço secreto do movimento esquerdista neurótico da anti-modernidade, e quem diz "sou contra os sintéticos" freqüentemente quer dizer "sou contra a ciência". Fato amplamente conhecido, as definições de "natural" e "orgânico" são mais teológicas do que empíricas, e a crença fanática no "100% natural" é o criacionismo de esquerda. Não há nada de errado com matérias-primas sintéticas em perfumes, na arquitetura, na pintura ou na música.

Claro, qualquer esforço verdadeiro para interromper a destruição sistemática do planeta e criar um ambiente mais saudável é extremamente importante. Se comprar em casas de produtos naturais e orgânicos como a Red Flower - o cultuado local de produtos pessoais na Prince Street, em NoLita (bairro de Manhattan, em Nova York) - é um ato de adoração tanto quanto uma questão de encontrar um ótimo exfoliante corporal, que seja.

Yael Alkalay, que fundou a Red Flower em 1999, não é fanática; os aromas de suas velas contêm elementos sintéticos, mas ela tenta, por razões filosóficas, minimizar seu uso. Este ano, Yael lançou seus primeiros três perfumes. Não é de surpreender que os três sejam orgânicos. A única verdadeira surpresa é que, apesar de evitar muitos elementos usados na perfumaria moderna, dois deles são bem aceitáveis e o terceiro, Guaiac, é excelente.

O perfume orgânico Guaiac, de Red Flower, criado por Yael e pelo perfumista George Devoe, é fascinante. Ele é também surpreendente, um resultado da extravagância que vem tanto do que você não sente - a ausência do onipresente almíscar sintético galaxolide, por exemplo - como do que você sente. O perfume também não cheira a madeira Pau Santo (guaiacwood), pelo menos não de maneira evidente. Cheira como aquela erupção cítrica e ensolarada que se consegue ao machucar a casca de uma laranja fresca com a unha, misturada ao odor de feno novo e morno. Seu frescor límpido e mentolado consegue não trazer o menor traço de menta. O adocicado não contém açúcar. Ele é tão direto que cheira mistério, e é tão simples, tão despido, tão radiantemente puro que cheira ingenuidade.

Se o Guaiac está a um universo de distância dos luxuosos, franceses e elaborados Guerlains do pré-guerra, está também à mesma distância dos aromas minimalistas do começo do século 21 das perfumarias Frederic Malle e Le Labo. Ambas escolas produzem perfumes brilhantes. Este tem algo a mais. Sua fragrância é como uma flor minúscula - insuportavelmente encantadora, absurdamente frágil, efêmera.

Realmente, sempre há uma ressalva. Guaiac é um perfume quatro estrelas por uma simples razão: ele não contém elementos sintéticos, que sempre conferem substantividade (o tempo que o aroma dura na pele). Guaiac é fugaz. Este é o preço que se paga por um perfume totalmente natural. (O outro preço é US$ 186 por 15ml, o que faz dele um dos aromas mais caros do mercado.) A quinta estrela que falta representa esta realidade técnica, mas que foi uma escolha do perfumista e será a escolha de quem o comprar. Se você aprecia os paradoxos do poeta inglês John Keats e encontra beleza no efêmero, vai perceber em Guaiac um dos perfumes mais extraordinários e fascinantes que já sentiu.


Guaiac
Red Flower
Redflower.com
 

Tradutor: Erika Brandão

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