Perfume Un Jardin après la Mousson, de Hermès, causa frustração

por Chandler Burr, do "The New York Times" *
Notas Perfumadas

  • Criadora: Hermès Avaliação:

Reações aos perfumes variam. Deleite, aversão, alegria, indiferença, melancolia, distração - tanto positiva quanto negativa - ou êxtase. Prevendo estas emoções, aguardamos ansiosamente novos trabalhos de grandes artistas como Jean-Claude Ellena, o perfumista da Hermès. Arte é, por definição, uma profissão de riscos, e embora ninguém seja perfeito, os riscos que Ellena correu muitas vezes alteraram a própria forma de arte; suas contribuições têm sido imensas. Portanto, causa certa estranheza que a primeira emoção gerada pela nova fragrância de Ellena para Hermès, Un Jardin après la Mousson, seja a mais profunda frustração.

Quando senti o cheiro do perfume, há um mês, tive certeza de que havia entendido o fascinante risco que Ellena quis correr. Em 1966, depois que o perfumista Edmond Roudnitska usou brilhantemente a maravilhosa (e nova na época) molécula sintética metil di-hidrojasmonato em Eau Savage, Ellena pegou a mesma molécula, conhecida como hediona, em 1993 e conseguiu revolucioná-la: Thé Vert de Bulgari praticamente criou uma nova escola de perfumaria.

Agora, com Mousson, ele estava - era óbvio, não era? - tentando o mesmo feito com metil-benzodioxepinona (nome comercial: calona), o sintético que praticamente dominou os anos 90 e gerou a escola marítima / da brisa do mar que explodiu com New West em 1990 e continuou com Escape e L'Eau d'Issey. Estes perfumes sempre contaram mais com os efeitos especiais do que com a beleza. A calona é, em sua onipresença crassa e baseada no apelo comercial, o equivalente olfativo ao melado. Mas eu supus que era essa a idéia, e a tentativa de reinventar artisticamente este clichê é admirável.

Entretanto, o resultado não é. Mousson falha em todos os níveis. Seu fracasso é tão singularmente completo, tão fantasticamente desorientador, que depois de eu ter cheirado repetidamente o frasco que foi entregue em meu escritório - passei em colegas, ofereci meu braço para estranhos - passei a desconfiar de que não estava sentindo o perfume pretendido. As essências não funcionam, a formulação possui defeitos. Parei em uma loja no aeroporto Charles de Gaulle para experimentar novamente. Era idêntico.

Com isto chegamos ao aroma. Não é difícil descrevê-lo. Mousson (seu nome completo significa "Um Jardim depois da Monção") é um esboço olfativo relativamente literal de uma baía salobra no verão: água do mar diluída em água doce, um pouco da úmida brisa oceânica, juncos (alguns levemente decompostos) e um indistinto odor de folhagem fresca de árvores da floresta mais próxima.

Difícil é explicá-lo. L'Eau d'Hiver, de Ellena, é um brilhante e desconcertante trabalho de arte abstrata. Mousson é igualmente desorientador, mas sem nenhuma sugestão de brilhantismo. Bois Farine, de Ellena, faz uma mágica inovadora com um dos mais improváveis odores - farinha de bolo. A calona do Mousson já era levemente clichê em 1996 com o Polo Sport Woman, e aqui está ela, nada recriada, nada rebelada, nada desfigurada em nenhum tipo de novo manifesto.

Mesmo sua luz parece assustadoramente errada. Ambre Narguile, de Ellena, está ensopado de uma incandescência tépida e densa, enquanto Un Jardin en Méditerranée vem cheio da mais pura e clara luz do sol. Mousson é iluminado precariamente, com lâmpadas fluorescentes dentro de tubos de alumínio, como no monótono escritório de um burocrata em algum ministério menor de Paris.

A surpresa final veio quando espiei a análise da cromatografia gasosa da fórmula de Ellena na semana passada. Ela contém uma enorme quantidade da molécula hediona, que Ellena tão elegantemente relançou no Thé Vert, algumas matérias-primas já esperadas (limão, bergamota, Melonal - que traz o adocicado das plantas -, folhas de violeta da folhagem ambígua) e alguns inesperados (devo admitir que falhei e não notei os 5% de vetiver, e só depois de reavaliar percebi que a nota de isobutilquinolina registra uma nota de couro/terra).

O que a fórmula não tem, entretanto, é o menor traço de calona. O que significa que Mousson, que cheira como uma tentativa heróica de reinterpretação da escola oceânica dos anos 90, não é nem mesmo isso. Já fiquei sem palavras antes, mas nunca a este ponto. Aqui, vejo incoerência quase total. Não percebo desdém do artista sobre o assunto, não há clareza alguma. Estou frustrado.


Un Jardin après la Mousson
Hermès
hermes.com
 

Tradutor: Erika Brandão

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