Resgate de prédios faz paulistanos verem no centro de SP uma opção para morar

  • Caio Guima

    Fachada do edifício Copan, na região central de São Paulo

    Fachada do edifício Copan, na região central de São Paulo

SÃO PAULO – Morar no centro de São Paulo vem deixando de ser, para muitos, sinônimo de decadência. Viver perto de praticamente todos os serviços disponíveis na cidade está se tornando o desejo de muitos paulistanos que veem no centro uma possibilidade de ter qualidade de vida. Projetos de revitalização e resgate de prédios antigos começam a trazer de volta pessoas que buscam morar perto do trabalho e ter mais acesso aos meios de transporte e a uma série de serviços de lazer e comércio que o local mais antigo da cidade oferece.

“As cidades que investiram na revitalização dos seus centros estão se dando bem”, avalia o presidente do Secovi (Sindicato da Habitação de São Paulo), João Crestana. “Existe demanda para morar no centro porque ele possui toda a infraestrutura de lazer, serviços e transporte”, analisa. Tamanha estrutura atraiu o auxiliar administrativo Davi de Lima Oliveira, 29. Para ele, não foi difícil deixar de lado a casa própria que tem em Osasco por um apartamento reformado perto da ponte Santa Efigênia.

Há nove meses morando no centro, Oliveira já nota a diferença. “Eu não sou de sair muito, mas tenho tudo do lado de casa. O investimento valeu a pena”, diz. O que mais pesou na decisão de realizar a mudança, além de ter todos os serviços a disposição, foi o fator tempo. Oliveira trabalha no centro das 8h30 às 18h e, para chegar ao escritório, saia de Osasco às 7h e só conseguia chegar em casa às 20h.

Agora, ele vai ao trabalho a pé e demora não mais do que 15 minutos para chegar. “Economizo na condução e durmo mais, antes era muito cansaço”, afirma. No centro, ele paga um aluguel de R$ 1.088 e a casa própria está alugada por R$ 900. “No fim, compensou”.

Mudança de cenário

Oliveira só conseguiu mudar porque o apartamento do prédio onde mora foi reformado. Não é de hoje que algumas empresas deixaram de esperar as ações sempre anunciadas pela Prefeitura e começaram a revitalizar prédios antigos por conta própria. Para Marcelo Lara, sócio da imobiliária de mesmo nome, o investimento vale a pena.

A Marcelo Lara Negócios Imobiliários já reestruturou quatro prédios antigos por meio do projeto “Vá ao Centro”. Até o final do semestre, a imobiliária espera ver mais dois prontos. “O investimento em imóveis no centro é um ótimo negócio. Mesmo com valores de aluguel mais baixos em relação a outras regiões, a infraestrutura da região contribui para que a demanda por locação seja alta”, diz.

De acordo com ele, o resgaste aumenta a ocupação desses prédios de 30% para 70% e o valor do imóvel se valoriza em cerca de 40% em seis meses. Em muitos casos, por exemplo, antes da reforma, não era possível alugar salas comerciais, e o valor cobrado era de R$ 5 o metro quadrado. Depois da reforma, esse valor passou a ser de até R$ 13. Em residências, Lara calcula que o valor passa de cerca de R$ 7 o metro quadrado para até R$ 16.

A ideia do projeto é convencer os proprietários dos prédios que o investimento na reforma tem retorno garantido e rápido. De acordo com ele, depois de cinco meses da reforma, a ocupação já passa para 60%. Antes de estipular o retorno aos proprietários dos edifícios, a imobiliária faz uma análise do prédio para avaliar o potencial de rentabilidade e as condições estruturais e legais. Depois são avaliadas as possibilidades financeiras do proprietário do prédio e a projeção de retorno. “Muitas vezes, esses proprietários não têm mesmo dinheiro para investir no prédio, por isso, não reformam”, diz Lara.

A imobiliária já tem planos de atrair grandes empresas e redes de varejo para a região, principalmente na Luz, para estimular outras reformas e atrair mais paulistanos para morar e abrir negócios no local. “Vai ser uma tendência, porque, quando um começa a fazer, outros vão fazer também”, diz.

Lara acredita que em um prazo de seis anos o centro já vai estar com outra cara. Crestana, do Secovi-SP, é mais conservador. Ele acredita que somente em 10 ou 15 anos é que haverá uma inversão: haverá mais residências do que escritórios. “Tenho convicção disso, porque já vi isso acontecer em outros lugares”. Segundo ele, no centro, hoje, existem 40 oportunidades para trabalho contra uma oportunidade para moradia.

Todo mundo junto

Durante seus estudos para realizar negócios no centro, Lara concluiu que lá é um lugar desejado por pessoas de várias classes sociais. “Pessoas de baixa renda, da classe média, artistas, empresários, todo o tipo de gente quer e pode morar no centro”, avalia. Tamanha variedade também parte da variedade de apartamentos que o local oferece - de quitinetes a apartamentos de alto padrão. “Podemos encontrar apartamentos residenciais de 40 a 160 metros quadrados, assim como salas comerciais com capacidade para abrigar pequenos escritórios, empresas de médio e até de grande porte”, diz.

Crestana também acredita no potencial do centro de abrigar a diversidade, por isso, crê que todo investimento feito no local trará retorno para toda a cidade. Para ele, o que falta é incentivo para formar um espaço plural. “Tem gente que acha que não se pode mexer no centro. Isso está errado. Existem pontos que de fato não dão para mexer, mas tem muita coisa que pode”, ressalta.

Para incentivar investimentos no local, o presidente do Secovi-SP acredita que algumas mudanças devem ser feitas, como, por exemplo, elaborar alguma legislação menos restritiva para obras no centro, aproveitar os espaços existentes, conceder incentivos fiscais a quem quiser revitalizar. Mas, para ele, a discussão com os paulistanos sobre o tema é imprescindível. “A cidade inteira deveria colocar como meta ter um centro onde morem pessoas de todo o tipo, renda e idade. Um espaço como o centro não pode ficar sem uma revitalização moderna”, ressalta.

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