Alta-costura: em Paris, revolução e rosas

CATHY HORYN
do "The New York Times"

  • EFE

    Detalhe da coleção de Giorgio Armani; veja mais desfiles abaixo

    Detalhe da coleção de Giorgio Armani; veja mais desfiles abaixo

O Grand Palais de Paris foi construído para exposições -- ali, muitos parisienses viram seu primeiro avião, no século passado -- e desde sua reinauguração no último outono Karl Lagerfeld o usou para exibir as novas roupas de Chanel e, é claro, a si mesmo. Em outubro ele mandou erguer um telão com sua imagem imensa como um King Kong. Para seu desfile de alta-costura de primavera, na terça-feira, ele armou o que parecia um silo de míssil. No fim do desfile, o tubo subiu em direção ao teto de vidro, revelando modelos numa escada em espiral.

É fácil zombar de Lagerfeld. Ele tem mais de 70 anos, fala terrivelmente rápido e tem uma coleção de jóias excêntricas. No outro dia ele usava um cravo de porcelana feito para Madame de Pompadour e retocado em ouro por Jean Schlumberger. "Ele era meio gênio, Schlumberger", disse Lagerfeld, espiando por trás dos óculos escuros e abrindo um largo sorriso.

Mas -- do peito de Madame Pompadour à lapela de Karl Lagerfeld -- essa é a trajetória do incrível cometa da alta-costura. Se você for genial como Lagerfeld, ou como John Galliano da Dior, não precisa perguntar se a alta-costura está morta. É importante que se consiga fazer conexões significativas entre o passado e o presente. Na segunda-feira Galliano mostrou uma coleção provocante com alusões -- nas botas de trabalho rústicas e no organza branco salpicado de vermelho -- à Revolução Francesa e, não incidentalmente, aos recentes distúrbios na França.
"A intenção é atingir o coração do que está acontecendo hoje", disse Galliano, que começou a trabalhar na coleção mais ou menos na época em que começaram os tumultos -- os piores desde a revolta estudantil de 1968.

Lagerfeld e Galliano são os dois motores da criatividade na alta-costura, e, como disse o alemão Lagerfeld, a alta-costura nunca precisou de mais de duas casas para ser relevante. Então aí estão Dior e Chanel. Jean Paul Gaultier fez um bom desfile na quarta-feira (25), com a chegada de Madonna criando um tumulto próprio. Mas embora as calças turcas e vestidos saco de Gaultier fossem produzidos com perícia, em pregas muito finas de chifon em cores de especiarias (com longas perucas cacheadas), não captaram exatamente a magia da alta-costura.

Magia é construir um blazer com uma ou duas costuras. Na Chanel, o visual plano e acinturado dos vestidos e blazers de lã para o dia foi alcançado modelando-se o tecido sobre o corpo. Um vestido longo espetacular em cetim branco, quase sem costuras, era drapeado e arrepanhado em três laços frouxos nas costas. Como contraponto à linha severa, quase anuladora, Lagerfeld adicionou saias fofas de plumas ou tecido rasgado.

E ele foi esperto em suas referências. Você poderia pensar que as botas brancas sem salto eram um toque de era espacial, mas Coco Chanel usou o estilo nos anos 50 com seus conjuntos de tweed. E as golas e mangas de organza branca amassada também foram inspiradas na imagem dela.
Alguém sabia disso? "Ele sabe", disse sua assistente Amanda Harlech antes do desfile.

Embora o caminho de Galliano em sua coleção seguisse o erotismo do marquês de Sade (daí os coletes "hardcore" e a localização sugestiva das faixas), você não sentia o peso da história. Pelo contrário, sentia uma espécie de libertação no corte: os casacos de couro tratados com leveza equivalente à das saias de organza branco, as pregas da saia vermelha criando uma alcova para um esqueleto de contas pretas. Os bordados eram engenhosos e modernos, como pode ser a alta-costura.

Valentino estava em forma na segunda-feira (23) à noite, com uma estupenda exibição de senhoras na primeira fila que terminava com David Furnish, recém-casado com Elton John. Nada muda na terra de Valentino, nem pretende mudar. Sempre há uma perfeição reluzente de bolo de noiva nas roupas, um ritual de laços, conjuntos eficientes e decotes para a noite realçados por diamante; e sugerir que poderia ser diferente -- mais duro, fraturado, contemporâneo -- apenas provocaria uma queixa aborrecida de Valentino: "Mas para quê?"

Nas últimas coleções faltou o elemento leveza; tínhamos a sensação de que apesar de toda a perfeição estávamos sentados para fazer uma refeição quente no equador. Mas desta vez Valentino parecia ávido para se livrar dos efeitos, reduzir a forma de seus vestidos e casacos para o dia a uma simples linha A e usar o brilho da seda para fazer seu trabalho mais forte.

Especialmente bonito era um vestido curto em crepe lilás com um decote amplo, mangas curtas e uma saia de cetim lilás parecendo um avental. As estampas eram de peônias e rosas salpicadas, as cores em tons do deserto, e várias senhoras da primeira fila ficaram especialmente animadas com um vestido branco longo com corpete justo de decote quadrado e uma saia de babados verticais com um toque de prata.

Naquela noite Valentino deu uma festa no Clube Ritz, onde uma das convidadas mais populares era Sheetal Mafatlal, que mora em Londres e Déli e vai abrir a primeira butique Valentino na Índia. Ela usava um conjunto preto Valentino de calças de cintura baixa e um enorme anel de esmeralda. De vez em quando alguém levantava seu anel e o mostrava para outro convidado. Mas Mafatlal levava na esportiva. A esmeralda tinha cerca de 200 quilates, ela disse. É mais ou menos o tamanho de uma tela de vídeo de iPod.

No folheto rosa em relevo da 38ª coleção de alta-costura de Christian Lacroix havia um crânio com ossos entre o primeiro "u" e o "t" de "couture". Fosse qual fosse o significado da caveira ali, existe um elemento de autodestruição no processo criativo: você precisa ter seu coração dilacerado a cada seis meses, a cada coleção, e se for tão sensível e honesto quanto Lacroix não conseguirá esconder a tristeza embaixo da renda insossa. Não faria justiça às emoções que primeiro chamaram nossa atenção para Lacroix.

Ele parecia ter voltado a Arles e a Camargue, à arena de touros e às estampas festivas, mas agora com uma clareza atenuada, mais sabedoria e menos inocência. Existe um motivo pelo qual os estilistas voltam a suas
origens: Galliano à Revolução Francesa, Lacroix ao sul da França. Será que Lagerfeld, assim como Helmut Newton, um dia encontrará seu caminho de volta à Alemanha? Quanto mais eles decaem, mais se tornam atentos à chama original. Eles vêem aquele momento como sua mais verdadeira auto-expressão, e o resto como uma espécie de abstração enganosa.

Então lá estava Lacroix com um blazer em estilo espanhol em organza preta com uma saia arejada de renda branca e um vestido Infanta curto em organza branca virginal, com barra em bordado inglês. Uma faixa de seda azul-claro dava acabamento a um vestido de comprimento médio de chifon marrom estampado, com as mangas rasgadas formando pufes de gaze. Ele usou elementos familiares -- o vermelho-sangue, os babados do flamenco -- e os reduziu a uma linha mais sóbria e forte. Sem bordados ou estampas carregados. Quando havia enfeites, eram pintados a mão em folha de ouro.

Três temporadas de alta-costura em Paris finalmente libertaram Giorgio Armani das garras de sua própria imagem. Ele teve um enorme sucesso no prêt-à-porter mantendo-se fiel a seu plano de jogo, e orgulhoso disso, mas a perícia do trabalho na alta-costura é tão precisa e cheia de nuances que expõe a ortodoxia e as dúvidas de uma pessoa. Comparada com suas primeiras coleções tensas, a que Armani mostrou na manhã de segunda-feira (23) era descontraída, envolvente e espirituosa, especialmente os pijamas para noite de lantejoulas pretas e um blazer bordado em espelhos e cristais, mostrado com uma saia de organza com estampa listrada.

Ele também superou o desconforto com roupas sensuais, mostrando um vestido de renda preta e lantejoulas com um profundo decote "frente única" e costas ousadas como um maiô. O campo de jogo da alta-costura pode ajudar a ampliar a imaginação de Armani e a restaurar para seu prêt-à-porter uma sensação mais real de surpresa. Mas suas roupas para o dia -- conjuntos de calça sérios em lã areia e cor de avelã com blazers fechados por laços -- poderiam ser mais leves. Armani mudou o rumo da moda com o corte de alfaiate, e seria interessante vê-lo adaptá-lo de maneira renovada na alta-costura. É a arma secreta que ele não está usando.

A julgar por seu apreço pelo branco galáctico e costuras que parecem cometas, Riccardo Tisci, o novo estilista da Givenchy, deve ter crescido com uma forte dose de "Jornada nas Estrelas". E isso também pode explicar por que há tão pouco humor em suas roupas dramáticas. Lagerfeld e Galliano pelo menos fazem você rir com suas extravagâncias conscientes, mas com Tisci você sente que está sendo convidada a participar das viagens de um jovem numa convenção de ficção-científica.
O problema é que Tisci parece preso entre dois mundos: o mundo de Audrey Hepburn, cujo vestido Givenchy era exibido no desfile, com o pequeno busto estufado de algodão ligeiramente amassado, e o mundo do Futuro. Tisci é muito talentoso; pode-se ver isso em um trench-coat com mangas em forma de sino com bainha farfalhante e uma série de vestidos de tule e chifon com pedaços de tecido nos corpetes. Mas é quase como se Tisci estivesse tão excitado por fazer alta-costura que não conseguisse se concentrar numa idéia.

Seu problema parece peculiar ao mundo da moda neste momento. Como disse Jean-Jacques Picart, consultor da LVMH Moet Hennessy Louis Vuitton, proprietária da Givenchy, diante de um vestido de cetim branco: "Estamos todos procurando alguma coisa nova. Mas de que lado sopra o vento?"

(Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

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