Homens "cadeirudos" e moda jovem revigorada abrem Casa de Criadores

CAROLINA VASONE
Editora de UOL Estilo

Há muito tempo a Casa de Criadores não abria tão bem mais uma de suas edições. Reveladora de talentos importantes para a moda brasileira, como Ronaldo Fraga, Marcelo Sommer e Jum Nakao - o último sentado na primeira fileira para assistir às novidades -, a temporada de moda vinha oscilando entre propostas interessantes, mas não necessariamente empolgantes, e coleções que não refletiam o salto qualitativo e criativo que o cenário fashion nacional deu nos últimos anos, auxiliado também pelo ensino formal na área, com tantas e tantas faculdades de moda pelo país.

FOTOS: Clique para ver os desfiles de André Phergom, No Hay Banda, João Pimenta, Ianire Soraluze, TudiCofusi e Rober Dognani
VÍDEOS: Assista aos desfiles da Casa de Criadores

Alexandre Schneider/UOL

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Detalhe dos homens "cadeirudos" mostrados por João Pimenta em seu desfile para o Inverno 2009, na Casa de Criadores



Nesta segunda à noite (8/12), a grata surpresa: entre uma ou outra experimentação para fazer pensar, não para querer vestir, natural numa semana de moda em que os jovens e alternativos dão o tom, os estilistas mostraram coleções coerentes, com personalidade, de roupas bem feitas e com ambições comerciais, sem deixar de lado a vontade de propor o novo, mesmo que nos detalhes.

Uma performance antecedeu, na passarela, o início dos seis desfiles das marcas Phergom, No Hay Banda, João Pimenta, Ianire Soraluze, TudiCofusi e Rober Dognani, apresentados nesta ordem. Até neste momento delicado (performances mal-sucedidas podem ser extremamente constrangedoras), a edição para o inverno 2009 da Casa de Criadores saiu-se bem: numa citação à ação dos pichadores que invadiram a última Bienal de Artes de SP, um grupo de garotos e garotas com camisetas brancas marchou pela passarela para, em seguida, ter suas camisetas "pichadas" com spray numa base de silk, com desenhos e dizeres como "São Paulo não é cinza". Simples, despretensioso e bem realizado. A ação foi organizada pelos artistas Renan Serrano e Fernanda Ruivo. Eles entraram em contato com a reportagem do UOL para reiterar que não são pichadores, o que já havia ficado claro pelo resultado completamente diferente das camisetas silkadas.

Alexandre Schneider/UOL

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Pantalonas foram um dos destaques do desfile de Ianire Soraluze para o Inverno 2009

Coleções para fazer pensar e para querer vestir

Curiosamente, veio de um veterano a coleção de inverno mais experimental do primeiro dia da Casa de Criadores. Conhecido por promover a intersecção entre os códigos do vestuário feminino e os corpos masculinos, sempre com resultado viril, João Pimenta desta vez se concentrou nas partes mais sinuosas das formas da mulher para criar suas roupas de homem: o quadril e a cintura. Em tecidos com bom efeito, como linho grosso, lã e moletom, e o preto e o branco como únicas cores, Pimenta arredondou com enchimentos os quadris das calças, marcou a cintura, fez referência à regata branca e calça preta dos homens de circo do passado, deu um toque sinistro nas peças com amarrações de roupa de hospital nas costas e criou uma imagem que tinha força e provocava interesse na passarela. Apenas nela. Afinal, se nem as mulheres querem ser "cadeiruadas", por que os homens iriam gostar desta imagem?

Outra grife que investiu na experimentação foi a jovem TudiCofusi. Com menos força em termos de imagem de moda, a grife ganhou ao investir na criação de roupas, mais interessantes que as leggings apenas coloridas e divertidas com que começou a marca, há menos de três anos. A dificuldade em fazer roupa em meio à crise financeira foi incorporada à coleção, que teve peças ajustáveis a vários corpos, caso das grandes batas usadas nos modelos masculinos. Em outros momentos, franzidos em vestidos curtos e longos, pontas e aspecto de roupa não acabada em cores ora neutras, ora felizes, como o azul e o amarelo. Na parte da frente da passarela, uma cadeira com um grande ovo em cima, obra do artista Guto Araki.

Alexandre Schneider/UOL

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Detalhe do vestido em jacquard florido com ar militar desfilado pela No Hay Banda, na Casa de Criadores

Entre as coleções que dão vontade de ir à loja comprar, Phergom abriu as apresentações com espírito roqueiro inspirado no ex-vocalista do The Smiths, Morrissey, criando mais do que calças justas, correntes e camisetas puídas. Jaquetas das mais variadas foram um dos pontos altos do inverno do estilista, ora mais femininas com pregas atrás, ora quase paletós, ora bem na forma de jaqueta mesmo. O veludo apareceu nas calças ajustadas, a meia-calça veio como proposta interessante com bermuda, e os modelos saruel fizeram boa composição.

Uma das melhores coleções da noite, ao lado da de Ianire Soraluze, a No Hay Banda apostou no clima retrô do pós-guerra, ensaiou um perfume militar bem leve, em insinuações de matingarles em versões molengas em belos vestidos pretos também moles e brilhantes. Destaque para o bonito vestido em jacquard, com gola que parecia militar na frente e acabava militar atrás. Combinação de lilás e preto foi bem-sucedida, com parte menos feliz apenas no final, com combinações em preto e branco carregadas demais, com ares envelhecidos.

Alexandre Schneider/UOL

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A top Samira Carvalho desfila vestido curtíssimo criado pelo estilista Rober Dognani para o Inverno 2009

Com a proposta de desconstruir o próprio estilo para se encontrar, mesmo num início de carreira, Ianire Soraluze acertou no tom elegante e na boa confecção de suas roupas cujo destaque foram as pantalonas, os casacos soltos, pontudos e abertos, os que acompanhavam o corpo, em bonitas combinações de marrom com laranja e azul com preto. O primeiro e o segundo look - uma calça pantalona e um casaco aberto marrom com uma blusa laranja e um vestido na altura do joelho, também marrom, levemente deslocado por um franzido na parte de cima - merecem destaque. Os vestidos e outras peças que pareciam feitos de nylon destoaram um pouco do clima contemporâneo e elegante do resto da coleção.

Último desfile da noite, Rober Dognani, outro veterano de Casa de Criadores, mostrou seus vestidos de festa para a próxima estação. Desta vez, abandonou os longos e optou pelo comprimento curtíssimo. O couro exerceu papel determinante em sua coleção. Os vestidos da primeira parte da apresentação trouxeram bem-feito e interessante trabalho neste material, com relevos estufados que de longe pareciam pregas, com outros momentos de pregas de fato, com efeito que fazia lembrar um pouco armaduras de guerreiros. O clima levemente futurista, com recortes duros de mangas, tom brilhante metalizado, infelizmente foi quebrado a partir da entrada de um macacão de calça comprida. A partir de então, os vestidos mudaram de personalidade, assim como o couro, que apareceu mais mole, franzido ou drapeado, intercalado com dourado forte, deixando vontade de ver o desenvolvimento do início do desfile, com mulheres mais urbanas, quase robóticas, mas sempre glamourosas, sexy e festivas.

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