Com investimentos, moda baiana procura a profissionalização

FERNANDA SCHIMIDT

Enviada especial a Salvador*

Atualizado em 1º/09, às 18h32

Na economia baiana, os negócios da moda ou da indústria têxtil não figuram na lista dos setores que mais engordam o PIB do Estado, de R$ 128 bilhões anuais, segundo dados de 2009, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. A fabricação, venda e consumo de roupas e acessórios aparece bem atrás de carros-chefe da economia local como celulose, petroquímica, automóveis, metalurgia, alimentos e bebidas e borracha.

Entre os desafios enfrentados pela área está a profissionalização de seus agentes e competição com demais Estados, em especial São Paulo e Rio de Janeiro. “Sofremos concorrência de todos os Estados, estamos lá embaixo”, disse Manoel Abreu Silva, diretor administrativo da Borda & Letras, empresa baiana de bordados. Por conta do clima quente e de sua orla concorrida, a moda praia e resort revelam-se destaque das criações locais, e o mercado enfrenta uma maior competição por parte das grifes cariocas – Blue Man, Cantão, Salinas e Richards, por exemplo, possuem de 2 a 5 lojas, cada, espalhadas pela Bahia.

A indústria de confecções tem recebido investimentos para mudar este cenário e tornar o mercado mais atraente e competitivo, tanto no Nordeste, quanto fora dele. Entre as ações está a criação do Centro de Design de Moda, projeto da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e o lançamento do próprio Bahia Moda Design.

O Sebrae-Bahia tem voltado seu olhar para as cadeias produtivas menores e colocou o setor de confecções no seu foco de desenvolvimento. “Graças à sua enorme capacidade de gerar emprego e renda, além da vocação e tradição que o Estado já tinha”, justificou Richard Alves, coordenador de gestão regional do Sebrae, em Salvador. A produção das peças, do corte do tecido à costura, exige mão-de-obra, muita. “A minha fábrica, que é bem pequenininha, emprega 30 pessoas”, disse Nicolau Almeida, proprietário e diretor criativo da marca Patro, de Feira de Santana. A empresa, de camisetas e batas masculinas, cria coleções próprias e desenvolve outras em grande volume sob encomenda, com uma produção total que chega a 12 mil peças por mês. A Bahia conta atualmente com 3 mil confecções, que empregam 20,4 mil pessoas, em regime de carteira assinada. No Brasil, o número chega a 940,6 mil.

Segundo o coordenador do Sebrae, a maior dificuldade hoje enfrentada pela indústria baiana é conhecer as especificidades do mercado de moda. “É preciso entender o mercado nacional, quais são os gargalos etc”, afirmou. Com este objetivo, o Sebrae, em parceria com o Senai e a Secti, promoveu há dois anos um primeiro curso no Centro de Design voltado para estilistas e indústrias do Estado, sobre o desenvolvimento de coleções, cultura empreendedora e gestão. “A gente acha que moda não está ligada a negócios. Até sabe, mas não vê como juntar as duas coisas”, disse Almeida, que fez o treinamento junto com a irmã, Sandra, sua sócia e responsável pela gestão da Patro.

Do lado dos lojistas, os desafios são outros. Vilma Guardiano Leal, proprietária de uma multimarcas infantil de Irecê, a 350km de Salvador, vê poucas confecções baianas vendendo em sua cidade. Como não consegue ir pessoalmente a feiras de negócios pelo país, ela tem de contar com a visita de representantes dessas empresas para comprar o estoque de cada temporada. “O calendário de São Paulo não coincide com o nosso. É em junho, quando estamos nas festas de São João”, disse. Segundo Vilma, o timing não é ruim por estar pulando fogueira, mas porque este é o período de maior movimento, ao lado do fim do ano. “A cidade recebe muitos turistas, as pessoas se preparam para as festas e compram muito”, explicou. Das cerca de dez empresas de quem compra, a maioria tem origem em Estados como São Paulo, Espírito Santo e, principalmente, Santa Catarina.

O Sudeste é um alvo para expansão dos negócios de quem faz moda na Bahia. Mas o passo inicial é consolidar o mercado interno e o da região, explicou Richard Alves, do Sebrae. O principal mercado consumidor do país é visto, por um lado, como um centro para boas vendas, mas por outro como um forte concorrente, ou “desviador” de atenções.

“Os eventos de moda são sempre no eixo Rio-São Paulo. Brinco que queremos uma democracia geográfica”, disse Virgínia Moraes, dona da marca de moda praia Vivere, de Salvador. A esperança por uma descentralização foi impulsionada pela inclusão da moda na agenda política do Ministério da Cultura. A capital baiana foi escolhida para sediar o primeiro Seminário Nacional de Moda, entre 16 e 18 de setembro, que contará com representantes de cada região do país e de cada setor da cadeia produtiva, totalizando 150 delegados. A programação do encontro inclui discussões de políticas setoriais e eleição de representantes para o novo Colegiado de Moda do país. Esta nova fase da moda baiana é vislumbrada também por nomes importantes do mercado local, como a artista plástica e designer têxtil Goya Lopes. “Com esse reconhecimento do Ministério da Cultura, muita coisa vai mudar”.

*A repórter viajou a convite da organização do Bahia Moda Design

UOL Cursos Online

Todos os cursos