Brasil é destino de investimento de marcas de luxo; saiba mais sobre o mercado

ANTONIO FARINACI

Colaboração para o UOL

Uma das mais tradicionais marcas de moda, a inglesa Burberry, responsável pela invenção do trench coat de gabardine, abriu suas portas em São Paulo, nesta segunda-feira (22), numa loja de 350 m2, no Shopping Iguatemi. Esta é a segunda loja da empresa aberta no país só em 2010 (a primeira fica em Brasília) e, até o final do ano, instalam-se por aqui mais duas grifes internacionais do panteão da moda: Emilio Pucci, marca italiana famosa por suas estampas orgânicas e multicoloridas, e o designer malaio Jimmy Choo, conhecido por seus sapatos feitos a mão (os preferidos de Lady Di).

  • Divulgação

    Croqui da fachada da 1ª loja de Jimmy Choo no Brasil, que será aberta no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo

A chegada dessas marcas encerra um ano que viu a abertura de lojas de outros grandes nomes no país, como a Chanel —que anteriormente podia ser encontrada na Daslu, mas que só agora chegou ao país com uma loja própria.

Essa movimentação de marcas em direção ao Brasil é vista como um sinal da pujança do chamado mercado de luxo no país. Segundo estimativas levantadas pela única pesquisa disponível sobre o setor, o "luxo" deve faturar este ano no Brasil algo em torno de US$ 7,6 bilhões, um crescimento de 22% com relação a 2009, o triplo do esperado para o setor do varejo brasileiro como um todo (que deverá ficar em torno de 7%). A pesquisa foi feita em conjunto pela MCF Consultoria, empresa brasileira ligada ao setor de luxo, e a GFK, empresa alemã de pesquisa de mercado.

"As perspectivas para o mercado são boas, mas esse número parece um pouco inflado", considera Ana Caroline Fernandes, professora pesquisadora do Provar, programa de administração de varejo da Fundação Instituto de Administração (FIA). "Temos um levantamento informal, feito com base em intenção de compra com consumidores, que prevê um crescimento em torno de 15%". Já para o economista Silvio Passarelli, diretor do Programa de MBA em Gestão do Luxo da FAAP, o número da pesquisa da MCF parece baixo. "Eles deixam de fora setores como empreendimentos imobiliários, por exemplo, que jogariam esse número para cima", acredita.

De saída, pesquisas sobre o mercado de luxo esbarram na difícil conceituação do que seria esse setor, uma vez que não há um estatuto ou regulamentação que defina precisamente o que é "luxo". Institutos como a FIA consideram que participam do mercado de luxo consumidores com renda mensal líquida superior a R$ 20 mil, ou com renda familiar superior a R$ 50 mil. "Mas conceituar uma empresa do setor é mais difícil, porque os parâmetros são muito frouxos e subjetivos, como exclusividade, perfeição, beleza, tradição", comenta Ana Caroline. "Definir o que é luxo é difícil, mas precisamos criar algum parâmetro se quisermos fazer uma pesquisa", afirma a professora. Na pesquisa da MCF, participam apenas marcas selecionadas por Carlos Ferreirinha, presidente da empresa que presta consultoria sobre o assunto.

Num setor que carece de uma normatização, fazer ou não parte do seleto clube do luxo depende muito de um acordo tácito entre as marcas já reconhecidas de aceitarem umas às outras como semelhantes. Mas depende igualmente de que o público também perceba a marca dessa forma, lembra Silvio Passarelli.

"Essas marcas precisam ser reconhecidas pelo público por sua qualidade, por seu design autoral, pela qualidade dos materiais e por sua tradição histórica", ressalta o economista. E aponta um dado muito importante: "o luxo não convive bem com a oferta massiva de um produto, pois o consumidor tem que sentir que aquele é um bem exclusivo".

Para a consultora de moda do UOL Estilo, Mariana Rocha, essa exclusividade tem a ver com a capacidade da marca de fazer com que o cliente se sinta possuidor de um produto único, raro e que lhe atribua status por extensão. "No universo do luxo, uma pessoa que se sujeita a uma fila de um ano ou mais para comprar uma bolsa não está sendo motivada só pela necessidade de ter uma bolsa ou pela crença em sua qualidade insuperável, mas pelo status que vem junto com esse produto", acredita Mariana. "E, é claro, para garantir esse status, os preços dos produtos têm de ser inequivocamente caros", lembra a consultora de moda. Uma bolsa dessas, da fila de espera, não custa menos de US$ 9 mil.

Para Ana Caroline, o luxo tem um componente irracional que deve ser levado em conta: "Ele tem que lidar com o lado emocional das pessoas, porque, conscientemente, ninguém vai pagar R$ 15 mil numa caneta, então, é preciso que o produto seja realmente difícil de se obter".

Mas como conciliar a necessidade de lucro com exclusividade? Por um lado, as empresas conseguem conter a produção em escala com seus preços altos, o grande denominador comum a todas as empresas do setor. Mas isso não basta. "Como as marcas de luxo não podem inundar um mesmo espaço geográfico com seus produtos, sob o risco de massificar sua imagem, elas têm que crescer em outras praças", explica Passarelli. "E o Brasil é um país com uma grande demanda reprimida para esse tipo de produtos, desde que passamos a ter uma inflação 'civilizada' e houve um 'relaxamento' das fortunas", acredita.

"O Brasil é o segundo país do mundo para se investir em mercado de luxo, atrás apenas dos Estados Unidos, conforme dados da Bain&Co", comenta Ana Caroline, "por causa do crescimento acelerado do número de milionários". Segundo dados do banco Merrill Lynch, em 2009, eram 147 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão, um número que cresce a uma taxa de 17% ao ano. "Estima-se que até 2014, os grandes mercados do luxo terão migrado da Europa e Estados Unidos para o Bric [grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China]. Não é de se estranhar que tantas marcas estejam vindo para cá".

Luxo institucional

A França foi o primeiro país a ter uma instituição que agrupasse suas marcas consideradas de luxo. Fundado em 1954, o Comitê Colbert reúne 75 empresas francesas ligadas à moda, perfumaria, decoração, joalheria, hotelaria e produção de vinhos. Na Inglaterra, desde 1990, a organização Walpole reúne empresas do Reino Unido tidas como "de primeira linha" em diversos setores, como moda, alimentação, varejo, aviação e até imprensa. Na Itália, a Fundação Altagamma, criada em 1992, funciona como uma espécie de câmara de comércio para as marcas “premium” do país.

No Brasil, em novembro de 2008, foi fundada a Abrael (Associação Brasileira de Empresas de Luxo), que reúne 26 empresas nacionais e estrangeiras que operam no país nesse nicho, em atividades ligadas à moda, relojoaria, joalheria, decoração e hotelaria, entre outros.

Para ser aceito em qualquer uma dessas associações, é preciso que a empresa tenha principalmente tradição em sua área de atuação e que seja reconhecida pela qualidade de seus produtos. Mas, acima de tudo, para ser considerado parte do setor, é preciso contar com a "bênção" dos outros afiliados, uma vez que não há um estatuto que defina os atributos e regule as empresas de maneira clara —como no caso da câmara francesa de alta costura, que exige que seus afiliados cumpram uma série de requisitos aferíveis (que as empresas tenham no mínimo 15 funcionários, que tenham um ateliê em Paris, que participem da semana de moda, que os produtos sejam feitos sob medida etc).

A organização Walpole, por exemplo, premia anualmente algumas empresas inglesas selecionadas como "Brands of Tomorrow" ("marcas do amanhã"), reconhecidas por seu "potencial de se tornar estrelas", segundo o site da organização. Uma das marcas contempladas na mais recente edição do prêmio foi a Basso & Brooke, especializada em estamparia digital e que tem o brasileiro Bruno Basso como sócio.

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