Livro chama a atenção para os efeitos negativos da propaganda sobre crianças

ROSANA FERREIRA
Da Redação

  • Getty Images

    Apesar dos pedidos, nem sempre encher o
    filho de presentes é o melhor para ele

Compras e mais compras. Para muitos, o Natal se resume a isso, independentemente do significado da data, que prega, entre outros sentimentos, o de solidariedade. Afinal, na lenda do Papai Noel, o bom velhinho distribui presentes para as crianças. Na vida real não é diferente, com uma diferença: quem compra os brinquedos são os pais e os familiares. E as crianças não perdem tempo. Fazem suas listas, às vezes bem ousadas para idade, baseadas no que veem nas propagandas de TV, para o desespero dos pais, que “rebolam” para conseguir realizar o desejo dos filhos.

 

Mas será que a exposição das crianças à propaganda na telinha traz efeitos negativos? Segundo a economista norte-americana Juliet B. Schor, sim. Professora de Sociologia na Faculdade de Boston, ela acaba de lançar o livro “Nascidos para Comprar” (Editora Gente, R$ 59,90), no qual analisa de modo contundente o efeito da propaganda e do marketing infantil no desenvolvimento das crianças e adolescentes. Para ela, a propaganda vende não apenas o produto, mas também a imagem que a garotada tem de si mesma e de como se sente ao consumi-lo. Ou seja, não basta ter um i-Pod, precisa ser o último modelo; não basta ser, precisa ter. Com base em pesquisas, Juliet revela que o resultado dessa exposição excessiva mostra um perfil preocupante entre as crianças norte-americanas: estão cada mais depressivas, ansiosas e acima do peso.

 

“O hábito de assistir à TV durante muitas horas resultou em uma exposição sem precedentes aos comerciais”, diz Juliet, que conta a experiência com a própria filha. “As crianças americanas são as que mostram mais afinidade com as marcas, a ponto de ficarem presas às marcas dos produtos”, relata. Um dos estudos reunidos pela autora mostra que crianças de 10 anos têm em média 300 a 400 marcas e logomarcas na memória.

 

Muitas das situações vistas no livro de Juliet Schor podem ser transpostas para o Brasil. Um termômetro para medir o consumo é a recente sondagem feita pela Fecomercio com 1113 consumidores da cidade de São Paulo, que mostra que o número de paulistanos que espera gastar mais neste Natal aumentou para 41,3% em comparação com a mesma expectativa em 2008 (36%). E os gastos com os filhos vêm em primeiro lugar (30%), seguidos pelos namorados (25%) e por parentes e amigos (21%). Sem dúvida, uma boa oportunidade para o setor infantil.

 

E os pais devem mesmo se preocupar com o assunto. E parece que já estão, como comprova uma enquete realizada pelo UOL, de 8 a 15 de dezembro, com a pergunta: “O que você acha do efeito da propaganda no desenvolvimento das crianças?”. Do total de participantes (600), 87,5% acha que incentiva o consumismo, por isso é preciso controlar o tempo de exposição da criança em frente à TV; 7,3% entende que é bom, pois a criança aprende desde cedo a fazer suas escolhas; e 5,7% acha péssimo, já que não tem condições de comprar tudo o que o filho pede.

 

Para a autora, portanto, o melhor investimento talvez não seja o monetário, e sim atenção e educação. Épocas como o Natal são boas oportunidades para exercitar isso. “É preciso tomar cuidado com o consumo exagerado, principalmente quando os pais têm boas condições financeiras”, diz a pedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). “Pais que enchem os filhos de presentes podem estar querendo suprir outras necessidades, como a sua ausência. Às vezes, somente a presença física ou um objeto diferente feito junto com o filho é mais gratificante e importante para a criança”, sugere.
 

 

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