Como diminuir o sofrimento após a separação

Blog do Ailton Amélio

UOL

Há bastante tempo, venho desenvolvendo técnicas terapêuticas para diminuir o sofrimento e abreviar o tempo de recuperação daqueles que sofrem por amor não correspondido ou que romperam um relacionamento amoroso.

Recentemente foi publicado um artigo que oferece evidências experimentais de que o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos pode ser atenuado e abreviado. Na pesquisa realizada, jovens adultos que estavam sofrendo os efeitos do rompimento participaram de atividades que os ajudam a separar suas identidades das identidades dos ex-parceiros e das identidades vinculadas ao relacionamento que terminou.

Neste artigo vou resumir os achados desta pesquisa e enumerar algumas outras medidas que uso no meu consultório para ajudar a diminuir e a abreviar o  sofrimento causado pelo rompimento.

 

Evidências experimentais que indicam que o sofrimento pode ser atenuado e abreviado

A reformulação do autoconceito ajuda a recuperação

Dois pesquisadores americanos, Grace M. Larson (Department of Psychology, Northwestern University) e David A. Sbarra (Department of Psychology, University of Arizona) publicaram recentemente um artigo que fornece evidências de que o sofrimento causado pela separação amorosa pode ser atenuado e abreviado pelo tratamento psicológico. (veja a citação desta publicação na Nota, no final deste artigo).

Nesta pesquisa, 210 jovens adultos que haviam terminado recentemente seus relacionamentos amorosos foram separadas em dois grupos. Os participantes de um desses grupos (120 jovens) foram submetidos a quatro sessões de testes e entrevistas psicológicas intensivas com o objetivo de avaliar quão bem estavam se recuperando de suas separações. Essas quatro sessões foram realizadas dentro do tempo de 9 semanas.

Os participantes do outro grupo (90 jovens) foram submetidos a apenas dois testes para verificar quanto haviam se recuperado da separação durante essas nove semanas. Esses dois testes foram realizados nas mesmas épocas que também foram aplicados no primeiro grupo (início e final das nove semanas).

 Os resultados dessa pesquisa mostraram que houve um grau maior de recuperação no grupo que passou pelas medidas e entrevistas intensivas do que no grupo que foi submetido apenas aos testes iniciais e finais: os participantes do grupo submetido às entrevistas intensivas relataram mais decréscimo nos distúrbios psicológicos intrusões emocionais, solidão e uso de palavras na primeira pessoa do plural ("nós") quando descreviam a separação do que aqueles relatados pelos participantes do grupo que foram submetidos apenas ao teste inicial e ao teste final.

Esses autores atribuem a maior dose da recuperação dos problemas psicológicos observada no grupo submetido a testes e a entrevistas intensivas ao fato dos participantes desse grupo terem falado sobre o rompimento do relacionamento: falar sobre o rompimento e sobre os efeitos que esse rompimento estava produzindo nos entrevistados ajudava a reorganizar o autoconceito e a separá-lo do autoconceito desenvolvido em função do relacionamento e do ex-parceiro.

 

Outras medidas para atenuar e abreviar o sofrimento produzido pelo rompimento psicológico

O rompimento de relacionamentos amorosos bem estabelecidos provoca sofrimento intenso e duradouro. (Existem estimativas de que, em média, leva cerca de três anos para que os separados se desfaçam de suas identidades de casados e recuperem suas identidades de solteiros). Esse sofrimento acontece porque as uniões amorosas bem estabelecidas são alicerçadas na intimidade, no amor, no compromisso e na fusão de diversos aspectos da vida psicológica, social e prática dos envolvidos.

Por exemplo, nos relacionamentos bem estabelecidos, os parceiros integraram seus planos para a vida, passaram a contar com a companhia mútua para o lazer, unificaram boa parte de suas identidades ("Deixamos de sermos eu e tu e nos tornamos "nós"".), constituíram uma unidade social e econômica, são os principais parceiros sexuais, tornaram-se uma unidade reprodutiva, etc.

Outros danos produzidos pelo término de relacionamentos plenamente estabelecidos são os seguintes: dores de amor, rebaixamento da autoestima, solidão provocada pela perda da companhia do parceiro, perda da identidade de casado, prejuízos nas ligações sociais, invalidação de planos de vida e perdas econômicas. Para aqueles que têm filhos pequenos, há também sofrimentos e culpa pelos possíveis danos causados a eles e a diminuição do convívio com eles.

O rompimento de todas essas áreas provoca sofrimentos mais intensos e prolongados quando ele se deu por "morte súbita" (rompimento repentino causado por fatos graves como a descoberta de traição, agressão física, etc.). O sofrimento também é mais intenso para a pessoa que ainda ama a outra que teve a iniciativa do rompimento.

 

Áreas que precisam ser separadas e recompostas após a separação

No meu consultório venho desenvolvendo procedimentos para atenuar e abreviar o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos. Alguns desses procedimentos são os seguintes:

Reprogramar o lado prático da vida

Muitas pessoas ficam perdidas e desamparadas com o lado prático de suas vidas assim que se separam. Esses aspectos práticos de suas vidas antes da separação eram cuidados pelo parceiro ou foram perdidos com a separação. Exemplos: como fazer o imposto de renda, onde morar, onde comer, o que fazer nos fins de semana, quem vai levar e buscar os filhos na escola.

Desapaixonar

Procedimento para desidealizar o ex-parceiro; procedimento para perder as esperanças que ele vá voltar ou que ele ainda sente amor pelo ex-cônjuge; associar lembranças do ex-parceiro com coisas ruins.

Recuperar a autoestima

Reprogramar os danos à autoestima provocados pelas brigas durante a separação. Reprogramar os significados da rejeição ou da traição pelo ex-cônjuge.

A recuperação da autoestima é especialmente importante para aquelas pessoas que foram desrespeitadas pelo parceiro, que deixaram de ser amadas pelo parceiro, foram traídas ou trocadas por rivais.

Livrar-se da sensação de fracasso

Sensação de fracasso e de culpa pelo fato do relacionamento ter terminado.

Perguntas típicas que revelam culpa e arrependimento: "Onde errei?", "O que poderia ter feito para evitar o fracasso o fracasso do relacionamento?".

Projetar a vida futura

Reprogramar os planos e objetivos para a vida que, antes da separação, incluíam o ex-cônjuge. "Os planos de vida com o parceiro foram desfeitos. E agora, como vejo a minha vida no futuro?"

 Recompor o círculo de relações

Boa parte do círculo de amigos pode ser desfeita com o fim do relacionamento. Perguntas típicas de quem teve prejuízos no círculo de relacionamento: "Como fazer novas amizades?", "Com quem posso desabafar com o que está acontecendo comigo?", "Se eu precisar de ajuda, com quem posso contar?". 

Você está sofrendo demais com o rompimento do seu relacionamento amoroso? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

1- Larson, G. M and Sbarra, D. A. Participating in research on romantic breakups promotes emotional recovery via changes in self-concept clarity. Social Psychological and Personality Science online on January 6, 2015 http://spp.sagepub.com/content/early/2014/12/18/1948550614563085.full  (Consultado em 17/01/2015)

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos